terça-feira, 19 de maio de 2026

A vida de Helena e a pauta da escala 6x1

 


Helena é uma mulher de 35 anos, moradora de Japeri, na Baixada Fluminense.

Todos os dias, Helena acorda às 5 da manhã para embarcar no trem da SuperVia em direção ao Centro do Rio, onde trabalha como balconista em uma loja de artigos para casa.

Apesar de os aplicativos apontarem duas horas de viagem, o planejamento do proletariado quase sempre é destruído pelos imprevistos do Grande Rio. Uma briga dentro do vagão. Um assédio. Um assalto. Uma falha no sistema.

Na estação de Nova Iguaçu, mais confusão. O trem precisou parar. Será necessário trocar de composição.

Aqui vale lembrar do sucateamento dos trens dos ramais Japeri e Santa Cruz. Vagões lotados, calor, atrasos e plataformas abarrotadas.

Um novo trem chega.

Mais empurra-empurra.

Mais gente tentando sobreviver ao próprio dia.

Helena consegue entrar.

Sentada? Não.

Vai em pé, tentando segurar um suporte mal projetado para alguém com um metro e sessenta de altura.

Depois de 2h30 de viagem, chega à Central do Brasil já atrasada. Da Central, segue andando quase correndo até a Rua Primeiro de Março. O dinheiro não é suficiente para mais uma passagem.

Exausta física e mentalmente, Helena ainda encontra forças para um pequeno gesto de amor-próprio: retoca a maquiagem e ajeita o cabelo antes de entrar no trabalho.

Seus pés já começam a doer.

Ela passa o dia inteiro em pé.

Enfim, a hora do almoço.

Helena esquenta a comida que foi amassada dentro da mochila durante a viagem de trem. Come rápido porque precisa voltar para atender clientes.

O expediente termina.

Apesar do cansaço, ainda sorri e brinca com os colegas. Uma delas também voltará de trem e descerá em Nilópolis.

Quando chega em casa, em Japeri, Helena sente bolhas se formando nos pés.

Mas o dia ainda não acabou.

A filha de 12 anos reclama que a internet não está funcionando. Reclamar para quem? Quem fornece internet na área é o Comando Vermelho.

Discussão. Estresse. Cansaço.

Mesmo assim, Helena ainda precisa fazer a comida da noite para ela e a filha. Enquanto cozinha, escuta ao fundo o barulho da novela da Globo misturado aos ruídos da vizinhança.

Já passam das 23h.

Helena toma banho e deita.

Dorme quase instantaneamente. Ou talvez nem seja sono. Seja desmaio de tão cansada.

Amanhã tudo começa outra vez.

E isso de segunda a sábado.

Domingo seria o dia do lazer.

Mas não é.

Domingo é dia de limpar a casa, lavar roupa e tentar organizar a semana seguinte. E, no fim das contas, que lazer existe para quem vive sob a pressão constante das facções e da falta de perspectiva?

A escala 6x1 aprisiona Helena.

Ela trabalha sem forças, mas continua acreditando que conseguirá dar um futuro melhor para a filha. Talvez, quem sabe, ainda tenha saúde quando chegar a aposentadoria. A prometida “alforria” depois de décadas de trabalho para sobreviver com um salário mínimo que mal dura até o fim do mês.

Ter uma escala 5x2 não transformaria Helena em rica.

Mas lhe daria algo raro: tempo.

Tempo para descansar.

Tempo para viver.

Tempo para existir além do trabalho.

Muitos dizem que reduzir a jornada quebraria a economia.

Também disseram que a abolição da escravatura quebraria o país.

Também disseram que férias remuneradas, descanso semanal e 13º salário seriam inviáveis.

No fim, o que realmente quebra o Brasil não é o descanso do trabalhador.

É a corrupção.

É o dinheiro público desviado.

É o privilégio de poucos sustentado pelo sacrifício de muitos.

A pauta pelo fim da escala 6x1 não é apenas econômica.

É humanitária.

Porque existem milhões de Helenas espalhadas pelo Brasil.

E amanhã, às 5 da manhã, enquanto boa parte da cidade ainda dorme, elas já estarão de pé outra vez.


Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo

Maio de 2026

domingo, 29 de março de 2026

A Moral da Dominação: Como Narrativas Religiosas Justificaram a Conquista nas Américas

 


Ao longo da história, a violência raramente se apresenta como violência. Em vez disso, ela assume a forma de virtude. Impérios não se anunciam como predadores — preferem se posicionar como agentes de liberdade, civilização, fé ou progresso. Essa construção narrativa não é acidental: ela é essencial para legitimar o poder.

Narrativa e Poder: A Base da Legitimidade

O poder precisa ser aceito para se sustentar. E essa aceitação nasce da narrativa.

Mais do que conquistar territórios, impérios precisam justificar suas ações. Para isso, constroem discursos que transformam:

  • exploração em missão
  • dominação em salvação
  • violência em dever moral

Esse processo é fundamental para moldar a percepção pública e controlar a memória histórica.


Colonização do Brasil: Catequese e Dominação

A colonização do Brasil é um exemplo claro dessa dinâmica. A expansão europeia, motivada por interesses econômicos e políticos, foi acompanhada por uma forte narrativa religiosa.

A catequese indígena era apresentada como uma missão espiritual: salvar almas e levar a fé cristã. Na Europa, circulavam imagens de indígenas participando de missas e sendo “civilizados”.

O que a narrativa ocultava?

Na prática, a realidade era muito diferente:

  • destruição de culturas indígenas
  • imposição de valores europeus
  • exploração de trabalho
  • violência física e simbólica
  • estupro de mulheres indígenas

A catequese funcionava como uma cortina moral, destacando aspectos positivos enquanto ocultava abusos e violência.


Estados Unidos: Destino Manifesto e Missão Divina

Nos Estados Unidos, a lógica foi semelhante, mas com uma formulação ideológica própria: o destino manifesto.

Essa ideia defendia que a expansão territorial era uma missão divina. Os colonos acreditavam estar cumprindo a vontade de Deus ao avançar sobre o continente.

Como os indígenas foram retratados?

Os povos indígenas foram enquadrados em duas categorias:

  • almas a serem salvas
  • obstáculos ao progresso

Em ambos os casos, a consequência era a mesma: a perda de território, cultura e autonomia.


Evangelização e Apagamento Cultural

Assim como no Brasil, a religião teve papel central nos EUA.

Missões religiosas e escolas foram criadas para “civilizar” os indígenas. Um dos exemplos mais marcantes foram os internatos indígenas, onde crianças eram separadas de suas famílias.  Sequestravam a criança dos pais para castrar sua essência cultural e identidade familiar.

O objetivo era claro: eliminar a identidade cultural indígena e substituí-la por valores ocidentais.

A espiritualidade, nesse contexto, deixou de ser apenas fé — tornou-se ferramenta de controle.


O Padrão Histórico: Violência com Discurso Moral

Ao comparar Brasil e Estados Unidos, surge um padrão consistente:

  1. Existe um interesse econômico ou territorial
  2. Cria-se uma narrativa moral ou religiosa
  3. Essa narrativa legitima a ação
  4. A violência é ocultada ou suavizada

Esse modelo não pertence apenas ao passado. Ele continua sendo utilizado em diferentes contextos políticos e geopolíticos. Exemplo: Milicianos no Rio de Janeiro que exploram o povo, mas participam de cultos evangélicos e fazem uma boa distribuição de ofertas e dízimos.


Narrativa e Memória: Quem Conta a História?

A história não é apenas o que aconteceu — é também o que foi contado sobre o que aconteceu.

Quem controla a narrativa controla:

  • a memória coletiva
  • a interpretação moral dos fatos
  • a percepção das futuras gerações

Por isso, analisar discursos é tão importante quanto analisar eventos.


Por fim, a utilização da religião como justificativa para a dominação revela uma das estratégias mais eficazes do poder: transformar interesses em valores universais.

Refletir sobre esse processo não significa simplificar a história, mas desenvolver um olhar crítico.

Sempre que uma ação for apresentada como moralmente elevada, vale perguntar:

O que está sendo mostrado — e o que está sendo ocultado?


Pense nisso!

Pedro H. Curvelo

Março de 2026

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando a "justiça" é inimiga da própria Justiça. A relação de um homem de 35 anos com uma adolescente de 12 anos

 


Assusta quando vemos que aqueles que deveriam ser os guardiões da lei se tornam defraudadores do que está escrito, da moral e do bom senso.

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais derrubou essa semana a sentença de primeira instância que havia condenado um homem de 35 anos acusado de estupr@r uma menina de apenas 12 anos.

Apesar de o Código Penal ser claro ao condenar a conjunção carnal com menor de 14 anos — e aqui não é preciso ser do ramo do Direito para entender isso — argumentou-se a existência de “vínculo afetivo consensual”. Chega a ser absurdo. Então agora meninas de 12 anos podem manter relação com homens adultos simplesmente porque consentiram? Outra loucura foi o argumento baseado no costume da cidade e porque teve a "benção" da mãe. 

Vale reforça que o homem de 35 anos também já tinha passagem na polícia por crimes como homicídio e tráfico de drogas. 

Agora pensem nas consequências: se amanhã homens adultos começarem a se relacionar com menores, mesmo com o consentimento dos pais, não serão penalizados? Teremos um padrão nesse absurdo?

Estamos falando da dignidade sexual das crianças e adolescentes. Toda defraudação, abuso ou opressão contra crianças e adolescentes revela uma degradação espiritual e moral de um país.

É dever da Sociedade em todas as esferas: religiosa, política, associações, imprensa e, principalmente jurídica, protestar contra esse acontecimento e decisão.

A justiça não pode cortar a própria vista para essa depravação.

Pense nisso!

Pedro H. Curvelo

Fevereiro 2026

domingo, 25 de janeiro de 2026

Quando o Rei Paga: como política, mídia e religião manipulam narrativas de poder


 

Há uma pergunta incômoda que atravessa séculos e permanece urgente: quem paga a conta das narrativas que moldam nossa visão de mundo?

Por trás de filmes premiados, manchetes bem construídas, músicas emocionadas e sermões inflamados, muitas vezes existe menos compromisso com a verdade e mais compromisso com quem financia a história.

Menos fé.
Menos ética.
Mais conveniência.

Manipulação de narrativas e poder político

Quando o rei paga, a narrativa muda.

Músicos passam a ouvir virtudes onde antes havia ruído.
Poetas encontram luz em quartos escuros.
Roteiristas transformam tiranos em heróis.

Não porque o governante tenha mudado, mas porque a narrativa política mudou de dono.

O poder político sempre entendeu que controlar histórias é tão estratégico quanto controlar exércitos.

Indústria cultural, cinema e propaganda ideológica

Quando o rei paga, a arte deixa de confrontar e passa a confortar.

Filmes reescrevem personagens.
Canções suavizam biografias.
Prêmios legitimam versões.

A indústria cultural cria mitologias modernas onde líderes são apresentados como salvadores, e não como agentes de interesses.

Não é errado potencializar o positivo — o erro é abortar o bom senso

Não há nada de errado em destacar virtudes quando se é pago para comunicar.

O problema começa quando, para cumprir esse papel, abortamos o bom senso, abortamos os valores e abortamos o nosso lado humano.

Quando maquiamos o grotesco.
Normalizamos abusos.
E pintamos sepulcros caiados como exemplos de virtude.

Aqui, a comunicação deixa de informar.
Passa a manipular.

Mídia, jornais e a higienização da realidade

Quando o rei paga, crimes viram equívocos.
Escândalos viram ruídos.
Fracassos viram desafios.

A mídia não mente diretamente.
Ela suaviza.

E quem suaviza, muitas vezes, esconde.

Influenciadores e o novo marketing político

Nos dias atuais, influenciadores se tornaram peças centrais da propaganda política.

Eles não defendem abertamente.
Mas sugerem.
Não declaram apoio.
Mas sinalizam.

É apoio sem assinatura.
Propaganda sem carimbo.

Religião, poder e a profanação do sagrado

Quando o rei paga, alguns líderes religiosos esticam versículos até sangrar.

O texto sagrado, que deveria confrontar reis, passa a legitimar tronos.

Aqui ocorre algo ainda mais grave: o sagrado é profanado.

O altar vira palanque.
O púlpito vira tribuna.
Deus vira argumento.

Tudo para beatificar, entre aspas, a atuação de um rei.

Controle do imaginário: ontem e hoje

Ontem eram bardos e arautos.
Hoje são estúdios, redações e algoritmos.

Mudam os meios.
Permanece a lógica: quem controla o imaginário controla o poder.

Quando o pagamento compra consciência

O dinheiro não é o vilão.

O problema é quando ele compra silêncio.
Compra distorção.
Compra louvor.

Nesse ponto, a arte deixa de ser arte.
A fé deixa de ser fé.
A palavra deixa de ser palavra.

Tudo vira mercadoria.

A pergunta que desmonta qualquer narrativa

Diante de discursos inflamados, filmes emocionantes e sermões reveladores, talvez a pergunta mais honesta seja:

quem está pagando?

Não para invalidar toda voz.
Mas para aprender a desconfiar.

Porque, quase sempre, quando o rei paga, não ouvimos convicções.

Ouvimos recibos.

Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo

Janeiro de 2026

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Um princípio silencioso para 2026: gratidão como alinhamento com a realidade


 


Às vésperas de um novo ano, somos empurrados a promessas, metas e expectativas. Mas talvez 2026 não precise de mais controle. Talvez precise, antes, de um princípio silencioso — algo que organize o olhar antes de organizar a vida.

A gratidão, quando bem compreendida, não é emoção passageira nem obrigação religiosa. Ela não muda Deus. Ela organiza o ser humano.

Existe um equívoco recorrente no campo religioso: a ideia de que Deus precisa ser agradecido, como se dependesse do reconhecimento humano para permanecer pleno. Essa noção não se sustenta.

A tradição espiritual no Islamismo (Surata 31:12) é clara: quem agradece, agradece em benefício próprio. Deus é pleno, autossuficiente, digno de louvor independentemente da resposta humana. O agradecimento não acrescenta nada ao divino — transforma quem agradece.

Deus não entra em carência por falta de louvor.
Não se altera.
Não se empobrece.

A gratidão, portanto, não é um favor prestado a Deus. É um cuidado com a consciência humana.

Quando entendida assim, ela deixa de ser moralismo e passa a ser reorganização interior. Não nega a dor nem romantiza a realidade. Apenas reconhece que, mesmo em meio ao caos, ainda existe sustentação suficiente para manter a lucidez.

No cristianismo, a espiritualidade não retira o ser humano do mundo — ensina a habitá-lo melhor. A ação de graças não alimenta Deus; educa o coração humano, libertando-o da murmuração, do ressentimento e da ilusão de controle absoluto. A graça já existe. Agradecer é reconhecê-la.

O estoicismo chega à mesma conclusão: não são os fatos que perturbam, mas os juízos. A gratidão reorganiza o julgamento. Ela desloca o foco do que falta para o que sustenta, da ameaça para a suficiência possível. Não é emoção. É lucidez treinada.

A psicologia moderna apenas confirmou isso: a gratidão reduz ansiedade, diminui a ruminação e fortalece a resiliência porque reorganiza a percepção. A mente humana não foi feita para habitar permanentemente a lógica da escassez.

A ingratidão não fere o Sagrado.
Não diminui o Absoluto.

Ela fere quem a pratica.

Ao agradecer, o ser humano não alimenta Deus — protege a si mesmo. Deus permanece pleno. O homem, ao agradecer, torna-se menos fragmentado.

Talvez por isso a gratidão atravesse religiões, filosofias e culturas não como imposição divina, mas como necessidade humana fundamental.

Feliz Ano Novo!

Pedro H. Curvelo

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

20 de novembro. Dia da Consciência Negra. Você já tomou consciência?

 


20 de Novembro – Dia da Consciência Negra

O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, é uma das datas mais importantes para refletirmos sobre a história, a cultura e o impacto da população negra no Brasil. A data foi escolhida em memória de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo da história e símbolo da luta por liberdade durante o período escravista.

Zumbi é o melhor símbolo da Consciência Negra?

A figura de Zumbi é fundamental na memória coletiva, mas também gera debates. Registros históricos indicam que Zumbi pode ter mantido escravos dentro do próprio quilombo, o que abre discussões sobre complexidade histórica e escolhas simbólicas.

Isso não diminui sua importância, mas reforça que personagens históricos são humanos e que o verdadeiro foco do 20 de novembro deve ser a consciência, a memória e a luta por justiça social.

A escravidão acabou, mas a desigualdade ficou

Quando o Brasil assinou a Lei Áurea, em 1888, aboliu oficialmente a escravidão. No entanto, não ofereceu qualquer política de inclusão, reparação ou desenvolvimento para os milhões de negros libertos.

Sem terra, sem educação, sem emprego e sem apoio, essas pessoas foram deixadas à própria sorte, enquanto o governo incentivava a vinda de imigrantes europeus que receberam oportunidades que os negros nunca tiveram.

Exigir “meritocracia” nesse contexto é ignorar a história. É pedir igualdade de resultados quando nunca houve igualdade de condições.

A força de quem resistiu

Apesar de todos os obstáculos, hoje vemos homens e mulheres negras nas universidades, empresas, na ciência, na política e em cargos de liderança. São conquistas históricas.

Como disse Mano Brown, muitos são aqueles que “não viraram comida de tubarão”, sobreviventes de uma travessia brutal, física e social.

O 20 de novembro é um convite

O Dia da Consciência Negra não é sobre culpa. Não é sobre divisão. É sobre consciência racial, social e histórica. Sobre entender o Brasil que herdamos e o Brasil que ainda podemos construir.

Você já tomou consciência?

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

A operação no Rio contra o Comando Vermelho foi um Sucesso ou Desastre?



28 de outubro de 2025. O Rio de Janeiro presenciou mais um capítulo da guerra contra o crime organizado. Às vezes é contra o Terceiro Comando Puro do Peixão, outras contra as milícias — e ontem foi contra o Comando Vermelho. Mais uma vez.

Para o governador Cláudio Castro, foi um sucesso com 121 mortos. Ou, como ele disse: “117 narcoterroristas”. Fora os quatro policiais mortos durante o serviço.

Mas, sem atrapalhar a festa do nosso governador-cantor, vamos pensar.

Quantos territórios do Comando Vermelho o Estado recuperou?
Nenhum. Entrou, atirou, alguns bandidos morreram — mas o domínio permanece com o Comando Vermelho.

O fornecimento de drogas vindo dessas regiões diminuiu?
Não. Se um playboy da Zona Sul quiser comprar entorpecente para uma festa particular, o fornecimento será garantido.

Quantas rotas de armamento foram identificadas e destruídas?
Nenhuma.

A população da Zona Norte ganhará a paz de poder andar sem presenciar ônibus sendo sequestrados para fechar ruas?
Não — continuará do mesmo jeito.

O pequeno comerciante, que já suporta carga tributária abusiva e a “taxa de segurança” do poder paralelo, deixará de receber ordens de criminosos para fechar o comércio?
Não deixará.

Sendo assim: a operação foi um fracasso.
Falo isso como cidadão que mora na Zona Norte do Rio.

Agora, se o objetivo é produzir conteúdo com cadáveres para impulsionar uma campanha eleitoral ao Senado em 2026, então — parabéns — está no caminho certo.

Bandidos foram mortos! Isso é bom?
Vamos pensar: Matar bandido reduz a quantidade de roubos? A resposta é simples: não. As estatísticas mostram que roubos e assaltos crescem ano a ano. Ou seja: você continuará andando com o “celular do bandido”.

Cuidado com os encantamentos dos políticos — sejam de direita ou de esquerda. Como mostrei em um vídeo que publiquei, a maioria nunca apresentou um único projeto de lei sobre segurança pública. Por isso que o bandido que é preso hoje, na verdade já tem três ou quatro passagens pela polícia.

Numa guerra, o conceito de sucesso e vitória é quando você finca a bandeira. Do contrário, é oba-oba político.

Não eliminaram o domínio do Complexo do Alemão nem do Morro São João — continuarão com o Comando Vermelho.
Nova Iguaçu continuará sendo território de milícia.
Brás de Pina continuará sob o Terceiro Comando Puro. E assim por diante.

E você?
Continuará trabalhando, correndo o risco de ser assaltado, pagando a taxa do poder paralelo e os impostos do Estado.

Pense nisso. 

Outubro de 2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Brasil Paralelo vs Brasil Real: PEC da Blindagem, Isenção de IR e Trabalho Infantil



O Brasil Paralelo dentro do Congresso

Enquanto o Congresso Nacional discute seus próprios interesses, o Brasil Real segue esquecido. Deputados e senadores vivem em um universo paralelo, distante da dor cotidiana da população. No Brasil Paralelo, a prioridade é manter privilégios e articular bastidores políticos.


PEC da Blindagem: privilégios acima da lei

A chamada PEC da Blindagem é um exemplo claro desse abismo.
Apresentada como defesa da democracia, na prática, representa apenas a proteção dos próprios parlamentares contra investigações e punições.
Enquanto isso, o povo sofre sem respostas para os problemas mais urgentes.


O Imposto de Renda até 5 mil e o esquecimento do povo

No Brasil Real, milhões de trabalhadores esperam a promessa de isenção do Imposto de Renda até 5 mil reais.
Essa pauta, que poderia aliviar o bolso da classe média e baixa, segue sendo empurrada com a barriga.
O contraste é evidente: enquanto no Brasil Paralelo discutem benefícios próprios, o Brasil Real vê o custo de vida aumentar diariamente.


Trabalho infantil: a chaga invisível

Nas ruas e feiras do país, crianças desnutridas trabalham para ajudar suas famílias. Como revelado pelo G1: 

https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/09/19/trabalho-infantil-volta-a-subir-mas-atividades-de-maior-risco-seguem-em-queda-aponta-ibge.ghtml


Esse é o Brasil Real, onde a fome e o desemprego empurram menores de idade para a sobrevivência precoce.
No entanto, esse tema raramente entra nas prioridades do Congresso.


Patriotismo seletivo e idolatria estrangeira

Outro contraste é o discurso de “patriotismo”.
No Brasil Paralelo, fala-se em valores nacionais, mas, na prática, existe uma idolatria por símbolos estrangeiros, tratados com mais respeito do que o próprio povo brasileiro.


Omissão diante das crianças nas redes sociais

O Congresso Nacional fecha os olhos para a exposição de crianças nas redes sociais.
Enquanto países estrangeiros já discutem limites e regulações, aqui no Brasil esse debate segue engavetado.
Mais uma vez, a política está no Brasil Paralelo, enquanto as famílias enfrentam sozinhas os desafios do Brasil Real.


Conclusão: até quando o Brasil Real será refém?

O Brasil Paralelo do Congresso segue distante, frio e malicioso.
O Brasil Real, por sua vez, luta diariamente com bolsos vazios, impostos sufocantes e a dor da desigualdade.

Até quando essa distância será mantida?
Até quando o povo será refém de uma elite política que ignora suas necessidades mais básicas?

Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo

Setembro 2025

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Um pavio de pólvora chamado Silas Malafaia

 


Silas foi atingido por aquilo que sempre foi sua arma: a voz. Quando um áudio vaza antes do fim de um inquérito, o estrago não é apenas jurídico — é narrativo. No Brasil, não é novidade: já vimos essa tática (ou desastre) na Lava Jato com Lula. Agora, o efeito rebote alcança Malafaia.

 

O áudio e o fim de duas romantizações

 

1) “Ele sempre foi assim.”

Para quem conhece Silas, não há surpresa no tom, nas explosões, no vocabulário bélico. O vazamento não revela um “novo Malafaia” — ele apenas escancara, para um público mais amplo, o mesmo repertório de décadas. O resultado prático é matar a narrativa do “perseguido religioso” puro e pleno. Soa contraditório reivindicar martírio quando o próprio material reforça o temperamento combativo que ele cultiva.

 

2) A fenda na dinastia Bolsonaro.

O trecho que envolve Eduardo Bolsonaro é dinamite. A percepção — já viva nas entrelinhas — de que Eduardo ainda opera como “menino” ganha corpo quando aparecem ofensas que atingem até o pai. A frase explícita — “VTNC SEU INGRATO DO CARALHO” — fulmina a aura do exílio heroico e expõe fragilidade de comando familiar. Um filho assim, em público, não protege o patriarca; complica-o.

 Quem irá se aproveitar disso não será apenas a oposição lulista, mas até os generais do bolsonarismo. Os governadores Zema (Minas), Tarcísio (São Paulo), Ratinho Junior (Paraná) e Caiado (Goiás). 

Por que isso importa?

Silas não é um ator periférico. É um comunicador profissional com milhões de seguidores, capaz de transformar indignação em combustível político. Mexer com Malafaia é sempre acender um pavio de pólvora: ele conhece o terreno, domina o tempo da fala e sabe ativar senso de pertencimento, injustiça e urgência. Se quiser, constrói em horas uma narrativa de perseguição suficientemente mobilizadora para encher ruas e caixas de comentários.

 

Mas o vazamento tem um efeito colateral: desalinha as versões. Quando a voz pública do movimento soa fora de controle, a base sente cheiro de desorganização. E onde falta harmonia, sobra espaço para dissidências — inclusive dentro do clã. Aqui vou repetir o que falei: Os governadores Zema (Minas), Tarcísio (São Paulo), Ratinho Junior (Paraná) e Caiado (Goiás).

 

As três frentes de impacto imediato

 

Base evangélica:

Firme na defesa moral, mas avessa a desordem que fragiliza o “testemunho”. O tom do áudio pode motivar alguns, mas cansa outros. Lideranças regionais, mais pragmáticas, tendem a pedir “sabedoria” e baixar o volume.

 

Bolsonarismo orgânico:

A ala digital adora a faísca, mas estrategistas percebem o risco: explosões verbais facilitam contra-ataques jurídicos e midiáticos. O vazamento vira munição para adversários e gera fadiga no eleitor médio.

 

Institucional/Jurídico:

Toda vez que a retórica se mistura com pressão pública sobre inquéritos, cresce a chance de endurecimento institucional. Em português claro: o sistema reage quando se sente afrontado.

 

O que será agora?

 

Há dois caminhos táticos disponíveis — e um custo para cada um:

  1. Dobrar a aposta

Intensificar o discurso, pintar o cenário de guerra religiosa, convocar a base e pressionar. Ganho: curto prazo, calor nas redes, alinhamento emocional. Custo: erosão de credibilidade no eleitor além do núcleo e mais atrito judicial.

  1. Baixar a guarda (o caminho mais difícil)

Reconhecer excesso de forma, recentrar a mensagem no mérito das acusações, disciplinar porta-vozes e reduzir o ruído. Ganho: preserva fôlego para a próxima batalha — e sempre há uma próxima. Custo: frustra a tropa que vive de combate diário.

 

Dentro do jogo político, a praticidade recomenda esfriar a chapa. De um lado, as acusações seguem seu curso. Do outro, quem quiser sobreviver estrategicamente precisa trocar volume por precisão: menos adjetivos, mais fatos; menos live inflamável, mais roteiro; menos desabafo, mais direção.

 

Em busca do controle narrativo perdido

 

Narrativas fortes têm coerência, cadência e canal. O vazamento sabotou as três:

  • Coerência: quando a fala pública desmente o personagem do “perseguido justo”, perde-se o enquadramento.
  • Cadência: a pauta foi sequestrada pelo improviso. Quem pauta pelo improviso vive na defensiva.
  • Canal: o áudio viraliza sem mediação; você fala, mas não edita. A mensagem chega crua — e cru nem sempre alimenta.

 

O conserto começa com disciplina. Não se combate gravação vazada com mais gravações explosivas. Combate-se com silêncio cirúrgico, mensagens testadas e porta-vozes treinados. Isso evita que o pavio siga queimando até o barril.

 

Conclusão

 

Silas Malafaia sempre jogou no limite — e muitas vezes venceu por causa disso. Desta vez, a arma ricocheteou. O áudio não destrói sua influência, mas recalibra seu custo: cada decibel de indignação agora cobra mais caro em credibilidade. Se a meta é atravessar a tempestade, a tática é simples (e impopular na militância): acalmar os ânimos, baixar a guarda e recuperar o controle da narrativa. Porque pólvora costuma obedecer à física, não à fé. E pavios, quando acesos, não perdoam.


Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo

Agosto de 2025

quarta-feira, 2 de julho de 2025

O Rito da Empatia diante da Brevidade da Vida




O Rito da Empatia Diante da Brevidade da Vida

por Pedro Curvelo

Vivemos como se a vida nos devesse alguma coisa. Como se o tempo, esse deus mudo e indiferente, pudesse ser domesticado pela força da nossa produtividade. Acordamos com metas, dormimos com frustrações. Entre o cuidado com o corpo, o trabalho, os compromissos sociais e o lazer agendado, vamos empilhando dias como quem arquiva papéis — automaticamente, sem memória afetiva, sem presença real.

E nesse frenesi, esquecemos do óbvio: somos uma caveira.

Sim, sob as camadas de pele, vaidade e performance, somos todos uma caveira à espera do pó. Não há nada de mórbido nisso — há algo de profundamente verdadeiro e libertador. Lembrar que somos finitos deveria ser o primeiro passo para sairmos do piloto automático e entrarmos no rito da empatia.

Mas não.

Tratamos os outros como funções, como ruídos na nossa jornada de eficiência. Classificamos os “lentos”, os “confusos”, os “burrinhos” do caminho — pais idosos, colegas de trabalho, atendentes de loja, amigos em crise — como obstáculos. Protocolamos interações como se fôssemos chatbots da vida: rápidos, objetivos, sem alma. E nesse processo, vamos nos desumanizando.

A empatia, então, se torna um rito.
Um rito de resistência contra a pressa que nos torna surdos.
Um rito de pausa para contemplar o outro não como um item na agenda, mas como alguém que respira, sente, carrega cicatrizes e tenta — à sua maneira — seguir vivo.

Porque enquanto corremos atrás de mais um deadline, a ampulheta vai escorrendo. Um piscar de olhos e já é outro ano. Um suspiro e a pessoa com quem brigamos ontem já não está mais aqui. O tempo não avisa quando vai parar. Ele simplesmente vai.

Por isso, a necessidade da empatia. Do comungar com a vivência do outro. Entender suas limitações, defeitos e reconhecer suas qualidades. Exaltar os seus dons. Focar não apenas no autocuidado. Mas, também no coletivo. No nosso legado e em como conduzir com nitidez a particularidade do que somos.

Pense nisso!

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Bobo da Corte Triboulet, Léo Lins e a MAIOR PIADA DO BRASIL


 


 Na Idade Média, os bobos da corte eram personagens curiosos. Vestiam-se de forma ridícula, usavam sinos no chapéu e andavam entre reis e nobres dizendo o que ninguém mais podia dizer. Com uma piada, zombavam do monarca, da rainha, da guerra e da fome — e saíam vivos. Mais que entretenimento, eram uma espécie de válvula de escape simbólica do poder.

 

Mas por que os reis permitiam isso?

 

Porque sabiam que o riso tem um efeito pacificador. Enquanto o povo estivesse rindo, não estaria se rebelando. A piada desarma. Humaniza. E no fim das contas, o bobo, mesmo zombando do rei, era sustentado por ele. A ousadia era parte do espetáculo, mas com limites sutis e bem definidos — muitas vezes invisíveis, mas sempre presentes. A piada era uma uma espécie de licença poética. Diferente se fosse algo organizado e formal.

 

Um exemplo emblemático é o do rei Francisco I da França, no século XVI, que mantinha em sua corte o célebre bobo Triboulet. Triboulet fazia piadas que beiravam o insulto, inclusive com a própria majestade. Conta-se que certa vez ofendeu gravemente um nobre poderoso, e o rei, irritado, prometeu que ele seria executado. Mas, como forma de clemência, permitiu que o bobo escolhesse a maneira como queria morrer. Triboulet respondeu:

“Morrerei de velhice, Majestade.”

Francisco riu tanto que o perdoou.

 

Rir do poder era permitido, desde que o poder ainda estivesse no controle do riso.

 

Corta para 2025.

 

O humor no banco dos réus

 

O comediante Léo Lins foi recentemente condenado pela Justiça Federal por uma piada considerada capacitista. A juíza Gabriela Serra Siqueira argumentou que a fala dele “não estava protegida pela liberdade de expressão”, pois teria ultrapassado o campo do humor e se tornado ofensa real. Com base na legislação que pune discursos discriminatórios, a decisão causou polêmica, elogios e indignações em diferentes campos da sociedade. 

 

Mas a condenação levantou uma questão mais ampla: piadas têm licença poética?

Ou, em outras palavras: o que separa o humor do crime? E quem está autorizado a fazer essa separação?

 

Historicamente, o humor sempre caminhou na linha tênue entre o aceitável e o ofensivo. É por natureza transgressor. O riso nasce do inesperado, do absurdo, do exagero — e, muitas vezes, do desconforto. Não existe humor sem risco. E por isso, quando a justiça entra no palco para decidir o que é ou não engraçado, algo se perde. Talvez não o direito do ofendido — que deve ser respeitado —, mas a liberdade de incomodar.

 

Se os reis medievais toleravam (e alguns patrocinavam) piadas sobre si mesmos, mesmo em regimes autoritários, por que democracias modernas parecem mais sensíveis a certos temas? Por que o comediante de hoje é punido por chocar, enquanto o bobo da corte era celebrado por fazer o mesmo?

 

A piada que ninguém quer ouvir

 

Entre tantas polêmicas sobre os limites do riso, há um tema que raramente vira piada: o roubo do INSS, por exemplo. A tragédia silenciosa de milhões de brasileiros que pagam tributos por décadas e se aposentam com valores miseráveis, enquanto verbas públicas somem em esquemas escusos que raramente resultam em prisão ou devolução de dinheiro.

 

Será que a maior piada de mau gosto não é essa?

Será que rir de uma deficiência é mais grave do que silenciar diante da humilhação institucional que é envelhecer no Brasil?

 

Léo Lins foi condenado por dizer o que muitos consideraram inaceitável. Mas quem será responsabilizado pelas “piadas” que o Estado faz com a dignidade do povo? E aqui não vou entrar na narrativa se o problema é do Governo Lula ou Bolsonaro. A difamação do roubo a aposentados e pensionistas está acima desses governos.

 

A fronteira entre o humor e o crime é real — mas ela também é política. E talvez, no fim das contas, o que determine se uma piada será tolerada ou condenada não seja o seu conteúdo, mas o seu alvo.

 

Como na corte de Francisco I, o bobo ainda pode rir — desde que saiba até onde pode ir.

E desde que o rei continue achando graça.

Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo

Junho de 2025

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Papa Francisco: In Paradisum, uma despedida de fé e humanidade

 




A morte de Papa Francisco marca não apenas o fim de um pontificado, mas o encerramento de uma era que tocou os corações além das fronteiras do Vaticano. Jorge Mario Bergoglio, o primeiro papa latino-americano, argentino de alma simples e profunda humanidade, despediu-se do mundo exatamente como viveu: com ternura, coragem e serenidade.


Francisco nunca se limitou aos muros de Roma. Seu papado foi itinerante e presente — visitando favelas, campos de refugiados, prisões e zonas de guerra. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, pegou engarrafamento no Centro da Cidade (rs).  Mais do que um chefe de Estado, ele foi um pastor que buscou as ovelhas, principalmente as mais esquecidas. Foi no diálogo aberto com diferentes religiões, na acolhida dos imigrantes e no apelo constante à paz que ele se tornou uma referência moral em tempos tão divididos.


Sua simplicidade sempre foi sua marca. Desde o dia de sua eleição, recusando as vestes luxuosas e optando por morar na Casa Santa Marta ao invés do Palácio Apostólico, Francisco se apresentou ao mundo como alguém que queria servir, e não ser servido. Ele trouxe a leveza da humildade e a força do exemplo para um papado que sabia ser observado em cada gesto. Fez piada, com forma carinhosa, dizendo que "brasileiro não tem salvação. Muita cachaça e pouca oração". 


Mas sobre seus ombros repousavam pesos enormes: a idade avançada, as doenças que progressivamente fragilizavam seu corpo, e também as críticas severas. Francisco foi acusado por alguns de heresia, de relativizar princípios inegociáveis da fé. Outros o atacaram por suas posturas sociais, associando sua defesa dos pobres e dos marginalizados a um alinhamento com ideologias de esquerda, especialmente o comunismo — acusações que ele, com paciência e doçura, enfrentava sem perder sua missão de construir pontes.


Sua história pessoal sempre foi marcada por desafios. Durante a ditadura militar na Argentina, Bergoglio lidou com tensões internas na Igreja e na sociedade, enfrentando dilemas morais e acusações das quais, mais tarde, foi absolvido. E em tempos mais recentes, na pandemia da COVID-19, Francisco ofereceu palavras de consolo ao mundo, rezou sozinho sob a chuva na Praça de São Pedro deserta e recordou a humanidade de todos nós, frágeis e interdependentes.


Agora, com sua partida, os olhares se voltam para o Conclave que escolherá seu sucessor. Será o próximo pontífice um “Francisco II”, alguém que continuará o caminho de diálogo, simplicidade e abertura? Ou a Igreja optará por um perfil mais conservador, buscando um reequilíbrio interno diante das resistências que Francisco enfrentou? As especulações já fervilham, e os cardeais carregarão a responsabilidade de decidir o rumo da Igreja em um mundo tão necessitado de esperança.


Independentemente do que venha, a trajetória de Papa Francisco permanecerá luminosa. Sua despedida, ocorrida após a celebração da Páscoa — símbolo maior da renovação da vida para os cristãos —, parece um sinal providencial. Francisco partiu na plenitude do seu serviço, deixando sementes plantadas em corações de todas as nações.


Ele nos ensinou que a fé não é um fardo, mas um encontro; que a Igreja não é uma fortaleza, mas um hospital de campanha; que a autoridade não se impõe, mas se oferece em serviço. Francisco nos deixa, mas seu legado permanecerá como um farol para os dias escuros e como um sopro de misericórdia para os tempos que virão.


Luz para a alma de Francisco

Pedro Henrique Curvelo

21/04/2025

sábado, 5 de abril de 2025

Jogo da Anistia




Anistia, Justiça e a Medida do Absurdo

O Brasil vive, mais uma vez, um daqueles momentos em que a história se repete — primeiro como tragédia, depois como incoerência. Os atos de 8 de janeiro de 2023, com a invasão e depredação dos prédios dos Três Poderes em Brasília, foram uma tentativa desastrada e violenta de ruptura institucional. Um episódio vergonhoso. Mas também um espelho incômodo: o país que ali se revelou não foi só o da extrema-direita em fúria, mas também o da Justiça seletiva, da espetacularização do castigo, e do silêncio sobre os verdadeiros articuladores.

O peso da pena: entre a dose e a impunidade

Desde então, o debate sobre a punição dos envolvidos ganhou força — e com ele, a velha discussão sobre anistia. Mas não é só sobre anistiar ou punir. A questão central é a dose da pena. Porque no Brasil, a dose nunca é neutra: ela costuma ser mais amarga para o pobre, o desinformado, o fanático de base — e mais suave, quase doce, para o poderoso que pensa, planeja, lucra e manipula.

A mulher que passou batom na estátua da Justiça, por exemplo, recebeu mais de 14 anos de prisão. Catorze anos. Por vandalismo simbólico. Enquanto isso, o STF flexibiliza as regras para traficantes condenados em segunda instância, permitindo progressão de pena ou revisão de condenações com base na quantidade da droga — decisões que, embora debatíveis, revelam uma Justiça mais flexível com crimes potencialmente mais letais para a sociedade.

E quanto a nomes como Eduardo Cunha e Sérgio Cabral, ambos condenados por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha? Estão soltos. Já sorriem em entrevistas. Já ensaiam articulações. Foram responsáveis pelo desvio de bilhões, desmontaram políticas públicas inteiras, e ainda assim, circulam livres. Isso não é anistia informal? Não é impunidade com toga e protocolo?

A pergunta se impõe: por que a mão do Estado é tão pesada para quem pinta uma estátua, mas tão leve com quem saqueia o país?

Lula, FHC e o peso das narrativas

Nos anos 90, o então deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva foi um defensor ativo da anistia a militantes do MST, grevistas e trabalhadores perseguidos por ocupações e protestos. Naquele contexto, Lula denunciava a “criminalização da luta social” e defendia que o Estado não podia tratar como criminosos aqueles que lutavam por terra, moradia e dignidade.

Agora, presidente da República, Lula assiste a um movimento — muito diferente em natureza, mas semelhante em clamor — pedindo anistia para os envolvidos nos atos golpistas do 8 de janeiro. É claro que as motivações não são comparáveis: um lado reivindicava justiça social; o outro rejeitava a democracia em nome de um messianismo autoritário. Ainda assim, a incoerência mora na política: por que a anistia vale para os “nossos”, mas não para os “deles”?

A justiça não pode ser guiada por afinidade ideológica. Se ela vale, deve valer para todos — inclusive para os que desprezamos. E é aí que a democracia se testa de verdade.

Ditadura: o pacto da anistia e o silêncio imposto

A anistia mais marcante da história brasileira ocorreu no fim da ditadura militar. Em 1979, sob pressão política e social, foi aprovada uma lei de anistia que perdoou tanto os perseguidos políticos quanto os agentes do Estado que os torturaram, assassinaram e ocultaram seus corpos. Foi um pacto cínico, travestido de reconciliação, que impediu o país de fazer justiça com os crimes da ditadura.

Essa anistia foi ampla, geral e irrestrita. Protegeu torturadores, escondeu arquivos, silenciou vítimas. Não foi pacificação — foi esquecimento. Um esquecimento que custou caro. E que mostra o risco que corremos quando confundimos paz com impunidade.

Conclusão: Justiça para quem?

O debate sobre anistia, hoje, não pode ser desconectado da pergunta mais dura de todas: para quem é feita a Justiça brasileira? Quando a punição é seletiva, ela deixa de ser Justiça. Quando a anistia é política, ela deixa de ser reconciliação. Quando a pena vira espetáculo, perde a pedagogia e vira vingança.

É preciso punir os atos de 8 de janeiro. Mas é preciso punir de forma justa, proporcional e — acima de tudo — coerente. Não se trata de passar pano. Trata-se de lembrar que a democracia não se protege com injustiças seletivas. E que um país que perdoa corruptos, mas destrói a vida de fanáticos desinformados, está apenas criando o próximo ciclo de radicalização.

Pense nisso: Enquanto temos fome de sangue das marionetes do 8 de janeiro, os articuladores estão alimentando a arena com narrativas políticas e no final estão ganhando em cima desse jogo. 


Pedro Henrique Curvelo

Abril de 2025

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Se Faça de Maluco e Sobreviva: A Estratégia que Ninguém Espera



Vou começar essa reflexão com uma história bíblica: Davi, o rei que derrotou Golias, certa vez teve medo da represália de um rei (Aquis, rei de Gate). Para ganhar a confiança desse rei e mostrar que não era uma ameaça, fingiu que era louco para sobreviver (1 Samuel 21:10-15). Começou a babar na barba e a rabiscar portas. Essa foi a estratégia que o livrou da morte. Não era covardia, era inteligência. Se ele tivesse escolhido enfrentar o inimigo de frente, seria só mais um corpo no caminho.

Às vezes, insistir na racionalidade ou no orgulho é o caminho mais rápido para a derrota. Fazer-se de louco é uma escolha madura quando o foco é a sobrevivência. Não se trata de ignorância, mas de estratégia.

No jogo da vida, é necessário saber quando se afastar da batalha para vencer a guerra. Isso envolve olhar a longo prazo, ter um propósito maior e não responder com velocidade a uma “obviedade do presente”. Quem leva tudo a sério demais acaba sendo peão no tabuleiro de alguém. Faça-se de louco e viva para jogar outro dia. Inclusive, essa é a única maneira de vencer algo ou alguém que é mais forte que você.

Faça-se de louco e burro diante de um mundo insano. Mas lembre-se:

Em circo de malucos, bata palmas e fique de olho na saída de emergência.

Deixe o show continuar, mas, na primeira oportunidade, saia desse meio. Você tem um propósito maior.

Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo
Fevereiro de 2025

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Rachaduras no Bolsonarismo

 


Esse período de eleição municipal revelou duas rachaduras no Bolsonarismo:

Primeiro o efeito Marçal em São Paulo. Pablo Marçal no cenário político não se torna ameaça para a esquerda. E sim para a direita. A fatia de votos que ele tira da direita se mostrou no primeiro turno em São Paulo. Seu discurso agressivo, debochado, com frases de efeito em um contexto de empreendedorismo, autoajuda e até religioso, encantou boa parte do eleitorado que deixou de votar no Nunes do Bolsonaro.

Não é a toa que o próprio Bolsonaro o atacou e depois o Silas Malafaia. Que até então se porta como um aiatolá do ex-presidente. Tudo bem que sobre o Malafaia, não foi só o Marçal que apanhou, o próprio Bolsonaro tomou uma chamada de "omisso" e "covarde" no sentido de que poderia ter sido mais protagonista nas eleições da cidade de São Paulo.

A segunda rachadura tem relação direta com os evangélicos. E aqui entra a figura do Deputado Federal e também Pastor Otoni de Paula Junior (MDB - RJ). Ao rasgar elogios ao Presidente Lula reconhecendo que os programas sociais ajudaram muito os evangélicos, como minha Casa Minha Vida, Prouni e outros. Tentou equilibrar o discurso dizendo que não votou no Lula. Mas, agradecer publicamente mostra um distanciamento do Bolsonaro. O efeito no Rio de Janeiro foi claro: Apoiou Paes ao invés do Ramagem, candidato do Bolsonaro.

E aos poucos o PT vai aumentando a articulação com a bancada evangélica. De acordo com a Folha de São Paulo, já se estima um acordo com 90 deputados da bancada.

Com essas rachaduras, os votos que o Bolsonaro recebeu começam a se dispersar para as próximas eleições. Vai se perdendo a centralidade. O discurso religioso, de guerra espiritual, muito presente na última eleição presidencial não ganhará força porque não terá um único inimigo. No jogo político a pior coisa é quando a definição de adversário se torna plural. Sendo mais de um, o candidato precisa dividir a narrativa e energia.

Ainda dentro do apoio dos pastores midiáticos, existe um fator de dúvida com relação a Igreja Universal. Tudo vai depender da mudança que haverá na presidência da Câmara dos Deputados agora em 2025. O vice-presidente da Câmara, deputado Marcos Pereira (Republicanos), tem buscado apoio do Presidente Lula. Ora, não podemos esquecer que Marcos Pereira é bispo licenciado da Universal e o próprio Partido Republicanos é da Universal. Se Lula apoiar, naturalmente a Igreja apoia o PT em 2026. Se criar essa aliança, não veremos mais a cena do Bispo Macedo colocando as mãos na cabeça de Bolsonaro e nem de nenhum dos seus aliados.

Vale lembrar que Republicanos, PL e União Brasil foram os partidos que mais ganharam prefeituras no Brasil.

Dentro da esfera política a formação da nova mesa da Câmara dos Deputados em 2025 irá apontar se as rachaduras no Bolsonarismo irão aumentar.

Por fim, o eleitor comum precisa acalmar o seu coração e não romantizar a política. Muito menos beatificar o que não pode ser santificado. Política é jogo do poder. E nessa relação acordos e discursos são feitos e desfeitos na mesma velocidade.

Procure entender mais sobre o jogo político.

Aprenda a sobreviver e blindar os seus interesses.

E, principalmente, não sofra por causa de político.

Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo

Outubro de 2024


domingo, 14 de julho de 2024

A Síndrome de Alexandre o Grande. O acaso e a estratégia sobre o atentado de Donald Trump



O atentado de Trump na campanha eleitoral nos revela o acaso em uma relação oculta com a estratégia de um jogo temporal humano. O que chamamos de política.

Aqui, antes de prosseguir, gostaria que você abrisse mão, ou pelo menos fingisse menos influência, dos seus conceitos, "pré-conceitos" que formam conclusões e reflita sobre os meandros dessa retórica.

Quando chamo o atentado de Trump de acaso, me refiro a fatalidades da vida que podem ser oriundas do que chamamos de "lobo solitário". Onde a gestação de uma opinião e argumento, evoluem para o ódio. Ao ponto do humano, lobo solitário, abrir mão de qualquer coerência, civilidade, e animosidade do que chamamos de saúde mental e atacar a vida de um outro ser humano.

Vide a quantidade de tiros disparados que não atingiram com eficácia o principal alvo, Donald Trump. Mostra que não tinha nenhuma preparação e nem esperteza porque Trump não é um pobre, sem educação e sem status, onde você precisa disparar alguns tiros para através do medo domar aquele ser. É um ex-presidente e atual candidato. Logo, seguranças particulares, CIA e FBI estão em constante vigilância. 

Não pense você que atentados não existem de forma caseira. Veja a história americana com Abraham Lincoln e John Kennedy.

Agora quando falo de estratégia, me refiro ao jogo onde o potencial de qualquer especialidade atende o seu fim, por que seu "pulvis finis" é o poder. E este, vive a doença do anacronismo do apogeu da glória de uma postestade terrena. Onde o marketing político é a divindade pagã de qualquer inteligênica mercadológica da publicidade de construção da imagem.

Onde se utiliza o princípio básico de Maquiavel onde "os fins justificam os meios".

Neste jogo não é nenhuma novidade o uso de atentados, terrorismo e ameaças de uma forma geral que visa construir a narrativa do "perseguido" pelo adversário. No caso de Trump, seu adversário é a bizarrice do fantoche Biden que me questiono se não existem, dentro do jogo do xadrez do poder, uma outra persona melhor do que o senhor Biden que deveria está curtindo sua aposentadoria. 

Mas, voltando a realidade nua e crua do jogo político em que também se usa qualquer meio para gerar uma narrativa de comossão, que visa estruturar um atentado fictíco só para gerar o clamor público. Pois quando falamos de "eliminar" o adversário basta um tiro pelo maior sniper que o dinheiro possa comprar. Ou ações de envenenamento que a Rússia sempre se mostrou eficaz. Vamos pegar carona nesse ponto com a história do Brasil onde mortes ocorreram sem uma explicação convincente. Me refiro a Juscelino Kubitschek, Ulysses Guimarães e Eduardo Campos morto na eleição de 2014.

Saiba que é normal no jogo do poder, que está acima de um mero período eleitoral, abrir brecha para o inimigo para "justificar" o aniquilamento dele e tomar o seu território.

Longe de mim ser sensacionalista e afirmar que foi construído esse atentado. Estou falando do que acontece nesse jogo. Onde essa é uma velha arma para manipular a massa. Longe de mim descartar um atentado real de opositores. Tudo pode acontecer.

Mas, não nos esqueçamos o momento em que o império americano vive. E convenhamos que Biden não possui nenhum peito de aço para afrontar a China e a Rússia.

Já Trump, como boa parte da elite americana, vive a síndrome de Alexandre o Grande, da mesma forma que este vivia a síndrome de Aquiles.

"nos movamos contra os bárbaros e nos libertemos da submissão persa, já que como gregos nós não devemos ser escravos de bárbaros." Alexandre

Interessante que quando ele fala "submissão persa", ele fala de ninguém menos que Dario.

Ironicamente é o pensamento americano frente ao poderio chinês e ao ímpeto imperial de Putin da Rússia.

Se bem que os tempos mudaram. Onde a manutenção da Dinastia Argéada dependia mais da estratégia da força militar do que da força tecnológica. O que o tabuleiro do nosso século fez questão de mudar a proporção frente ao que a Providência determinou. Hoje não temos o "Bucéfalo" e suas cavalgadas mitológicas em nossa política (Bucéfalo foi o cavalo de Alexandre).

Por fim, o que este incidente revela, seja o acaso ou estratégia, é que o sistema é isso. Cabe você, cidadão comum do seu bairro, pensar na política como jogo de poder onde o tabuleiro está bem longe do que os nossos posts em rede social possa alcançar. Mas, vale ficar atento a esse sistema. Esse ano temos algo que influencia diretamente sua vida e da sua família: Eleição para prefeito e vereador. E, por falar em atentados, muitos acontecem na baixada fluminense do Rio de Janeiro nesse período.

Pense nisso.

Pedro Henrique Curvelo

Julho 2024

quinta-feira, 23 de maio de 2024

O Luto e Transcendência



Existe o momento da vida em que chamamos de luto.

Sem eufemismos são momentos onde enxergamos o fim, simplesmente.

Onde não existe esperança de recuperação, ressurreição, reencarnação ou probabilidades de uma interseção.

Simplesmente é o fim. O silêncio. O vazio. A realidade nua e crua.

Onde pequenas doses de dopamina só existem pelo reavivamento das memórias. Onde transitamos entre o choro e a matriz de um mundo paralelo de encontro ou vivência com aquilo que não existe mais. Que pode ser feito pela consciência ou com o auxílio de elementos como álcool, drogas ou jargões positivos e religiosos.

Um luto pode ser a morte de um pai presente e atuante que simplesmente deixa de existir por causa de um acidente.

Um grande amor que simplesmente se vai. Não por morte, mas por caminho diversos da vida. Onde se tenta resgatar doses de esperança de um retorno.

Mas, entre choro e esperança sem fundamentos, surge a transcendência no encontro com o fim.

Não como romantização ou sistema de compensação do luto. Mas, da compreensão de que o fim chegou.

Como se fosse um fantasma que aceita o fim e decide não interferir no que ainda é e evolui. Como o grande Mestre uma vez ensinou: "Deixe que os mortos enterrem os seus mortos".

A transcendência do prosseguir.

Onde se interrompe os sistemas de cobrança. Onde existe simplesmente ir e evoluir. Processo pelo qual o "vinho novo encontra odres novos".

Pense nisso.

Pedro Henrique Curvelo

Maio de 2024

domingo, 28 de abril de 2024

VOCÊ REALMENTE SABE O QUE É CONSCIÊNCIA DE CLASSE?

 


É normal em discussões sobre Capitalismo e Socialismo, ouvirmos a expressão “Consciência de Classe”. Principalmente em termos dos direitos do trabalhador e sua relação com os patrões.

O discurso sobre essa tal consciência acaba entrando mais em um terreno de jargões de sindicatos do que praticamente uma diretriz ou processo que o trabalhador pode seguir. Expressão essa originada no Marxismo e a Ditadura do Proletariado. Se bem que o próprio Karl Marx não dogmatizou esse conceito.

Por isso, quero dar um passo para trás dessa consciência de classe e focar na consciência de si.

O princípio é: Você precisa ter consciência de si, da sua realidade financeira e social e usar a política a seu favor.

Aqui o ponto de partida é individual. Não é atender pleitos de dirigentes sindicais, exigências dos patrões ou usufruir sem pensar dos benefícios sociais de um governo.

Quem você é?

É rico, pobre, branco, preto, deficiente físico e assim por diante.

Mora em que lugar?

Comunidade, condomínio fechado na Barra da Tijuca ou interior.

Sua realidade familiar. Como ela é?

Família tradicional. Família onde o pai abandonou. Casos de vícios, mortes ou tragédias.

Profissão. É professor, dentista, comerciante ou funcionário público.

A partir dessa consciência de quem você é, você deve então usar a política a favor dos seus interesses.

Seus Interesses

Sim! Seus interesses. Política é um jogo de poder de interesses. Você é prejudicado pela política porque os seus interesses não estão sendo representados.

Exemplo: Sou funcionário Público. Logo, preciso ter conhecimento de pautas legislativas e executivas que podem impactar a minha vida.

Pense nas grandes corporações que possuem os seus “lobistas” lutando pelos interesses em um determinado setor.

Integração de Interesses

Tendo consciência do que te impacta, ou impacta a sua área de atuação, você integra as suas necessidades com de outros. Seja por associações, clubes ou sindicatos.

Exemplo: Você mora em um determinado bairro e as ruas possuem uma precária sinalização de trânsito que impacta a sua vida e de seus filhos na hora de ir para a escola. Outros pais também tem a mesma necessidade que a sua, momento ideal para unir forças e fazer um pedido para a prefeitura, chamar alguém da imprensa. Sozinho dificilmente você irá conseguir. Só se você for um influenciador digital, mas um caminho é associação de moradores do seu bairro.

Seu bairro tem um? Tem, mas você não gosta. Não querer participar de uma associação de moradores é um direito seu. Mas, pessoas irão decidir por você. E o que escolherem, pode te impactar.

Pense fora da narrativa política

Política é um jogo de narrativas. Pare de sofrer porque o Bolsonaro falou isso ou porque Lula falou aquilo. Saiba que nossa estrutura política é superior a isso. E dependendo de quem você é e suas necessidades, um prefeito te impacta mais do que um presidente. Foque no concreto. O que está sendo tratado no legislativo e executivo. Fuja das distrações.

Uma maneira de fazer isso é entrar no site da Câmara dos Deputados, senadores, assembleias legislativas estaduais, câmara de vereadores e cadastrar o seu e-mail. Para receber o que está sendo votado. Ou cadastrar de um determinado político para saber o que ele está fazendo.

Não se deixe enganar por partidos de "direita" ou de "esquerda"

Aqui tem relação com o ponto anterior. A guerra de narrativas entre direita e esquerda, capitalismo e comunismo (que foge totalmente do sentido tradicional) pode te distanciar dos seus objetivos.

Exemplo: Você é um professor da área pública. De imediato você pensa que seus interesses serão atendidos pelo PT ou PSOL. Não necessariamente. Existem políticos que se prendem apenas ao teatro do discurso para gerar sensacionalismo. E de prático não fazem nada de concreto.

Outro exemplo engraçado são políticos que possuem discurso forte contra bandido e a criminalidade. Mas, nunca apresentaram um projeto de lei para tornar a legislação mais firme. Se vai ser votado ou não é outra história. Mas, apresentar um documento com uma proposta de lei, todo deputado pode.

Aí, nesse exemplo, você é assaltado ou alguém da sua família morre vítima de um crime. Você se revolta, mas na eleição vota em políticos que não trabalham em prol a essa pauta.

Ter consciência de si é o primeiro passo para a consciência de classe. Que possui várias facetas.

Você tem alguém na sua família com autismo? Então você precisa se juntar com pessoas que estão na mesma realidade que você. Participe de grupos com essa temática, produza conteúdos, siga artistas que falam sobre e vote em políticos que defendem qualidade de vida e direitos para os autistas. O político ganhou, nada foi feito. Na próxima eleição não vote nele. Simples assim.

Você é trabalhador e precisa andar de transporte público, ônibus e Uber. Essa é sua classe. Você precisa votar em vereadores que cobram a prefeitura por qualidade desses transportes. E não no miliciano que proíbe Uber no seu bairro para forçar você a pegar a van controlada por ele. Não vote nele. Mesmo que seu líder religioso diga que é um “homem de Deus”. Você não precisa falar que não irá votar nele porque pode ser arriscado, apenas não vote nele no momento da cabine da urna eletrônica. 

 Por fim, pense: O que vai acontecer se todos lutarem pelos seus interesses?

A resposta é: O jogo ficará mais equilibrado. Como no xadrez, se você não focar, apenas o outro irá ganhar. 

Hoje é desproporcional o conceito de equidade no jogo. Ainda na analogia do xadrez. É como se o outro jogador só tivesse Rainhas entre suas peças e você peões. Peão é limitado por natureza. Rainha tem mais oportunidade de movimento. Por isso que o peão precisa se esforçar para pegar alguns espaços que a Rainha tem ocupado. Se ele não se movimentar será comido. Simples assim.

Pense nisso.

Pedro Henrique Curvelo

Abril de 2024

sábado, 30 de março de 2024

NOSSA IDENTIDADE COMO NAÇÃO

 



Somos filhos da cultura grego-romana. 

Beatificada pela sobrevivência romana com incrementos cristãos da revolução social de um grupo de seguidores de um judeu chamado Jesus.

Em nosso DNA está o despertar do Iluminismo. Onde homens se tornam deuses. Onde nossos amores se convertem em valquírias. Onde nosso cristianismo se torna purificado de qualquer interferência palestina, árabe e africana. Onde a intervenção do Sagrado ou de forças extraterrestres respaldou a exclusividade da verdade e o direito ao domínio.

Amamos nossa terra. Mas, pisamos sem dó nos filhos da mãe brasilis. Com o perdão da semântica, foda-se se o filho é um ianomâmis, carajás, caiapós, tupis, caingangues, guaranis, uaimiris ou xavantes. Não importa. Afinal, o suicídio de uma mãe indígena para não ser escravizada pelos portugueses ou estuprada pelos Bandeirantes só é ouvido pela mata da natureza brasilera. Um emergente na Barra da Tijuca não consegue ouvir. Muito menos um playboy de Balneário Camboriú.

Quanto aos nossos negros, antigas propriedades, antigos motores da nossa economia, estupramos a mãe africana e fingimos que uma assinatura apaga o débito da força trabalhadora. Por ironia, sempre se escreveu que o princípio bíblico é que a Providência sempre disse que “digno é o trabalhador do seu salário”. Não diferente, o sangue da nossa terra clama por justiça. Quem ouvirá? Eu? Você? Um poder temporário de quatro anos? O Divino? Uma marchinha de carnaval? Mas sendo Divino em qual teologia que o respalde?

Enquanto vivemos nossa agitação mental de valores e cultura, seguimos. Quem sabe um dia poderemos casar com a princesa filha da mãe África. E honrar seus ancestrais. Que pelos seios maternos, filhos dos barões do café foram alimentados. Honrar as mãos que trabalharam e que durante a noite, como castigo, ficavam presas na mesma altura que seus tornozelos em um chão de terra.

Eles não conseguiam ouvir, mesmo tendo suas senzalas embaixo das salas de jantares. Entre suas porcelanas tinham o canto e o toque do piano na Grande Casa. E hoje não escutamos também. Nosso burrice é tão tamanha como nação que nos assustamos com o holocausto durante o nazismo, mas esquecemos da nossa própria terra. Seja no passado ou atual dois séculos como os centros psiquiátricos. Sim! Nossa Barbacena em Minas foi um pedaço da nossa Auschwistz.

Alguns por surdez intelectual. Outros por puro egoísmo. Outros por culpar o álcool ao ouvir alguma voz ou energia de protesto quando visitam alguma fazendo do antigo Vale do Paraíba (fazendas históricas no Rio durante o período imperial). Culpam o alambique ou se refugiam em algum psicotrópico para calar a voz da verdade.

Mas, seguimos. Quem sabe um dia o filho da mãe brasilis honrará o ventre da princesa africana. Dará alívio aos nossos doentes mentais (viva a memória de Nise da Silveira!). Quem sabe julgará a causa das vozes que clamam por justiça diante das ruínas que estrangeiros visitam no nosso Brasil.

 

Pense nisso!

 

Pedro Curvelo

Março 2023

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O que penso sobre o discurso do Lula sobre Israel



 O tema Holocausto sempre chamou a minha atenção bem antes de iniciar a faculdade de história. Quando iniciei, já sabia o que queria pesquisar como monografia. No final escrevi sobre a participação da Igreja Luterana na perseguição aos Judeus durante o Nazismo. Foquei nesse tema porque muito se escrevia sobre a Igreja Católica. Mas, quase nada sobre a igreja estatal da Alemanha: A Protestante Luterana.

Já no primeiro período eu mergulhei nessas pesquisas. Documentos da época. Manuscritos do próprio Martinho Lutero que "justificava" a perseguição aos judeus e, o mais bizarro, a leitura do livro do próprio Hitler: Minha Luta.  Sempre me surpreendi com as teses raciais, políticas e teológicas construídas para perseguir os filhos de Abraão. No outro extremo as fake news sobre os judeus. Bem antes da internet, colocavam jornais nas paredes com imagens para criar um sensacionalismo entre a população. Na Alemanha Nazista, por exemplo, circulava uma propaganda acusando velhos judeus de pedofilia. A imagem era um judeu ortodoxo dando um pirulito para uma criança ariana. Exemplo das propagandas:


Infelizmente hoje com a Guerra entre Israel e Hamas na Palestina, as pessoas se prendem a argumentos teológicos, filosóficos, preconceitos, vídeos de tiktok como "fonte oficial" sobre determinados assuntos. Assim, vivemos um sensacionalismo usado no discurso político. O que é esperado, afinal política é um jogo de narrativas.

Sobre a postura do Lula ao protestar contra a guerra durante sua viagem na Etiópia, traz para mim alguns pontos de reflexão:

"O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existiu em nenhum outro momento histórico..." Lula

Faz sentido. Na lista dos conflitos nessa região (que é do tamanho da cidade de São Paulo) com os romanos, Império Turco, persas, assírios, tribos israelitas (antes de surgir o Estado de Israel); não se compara a guerra atual, principalmente relacionado às crianças. A estatística era assertiva na época desses povos? A resposta é não.

"...Aliás, existiu. Quando Hitler resolveu matar os judeus". Lula

Aqui está a "linha vermelha", mencionada pelo Benjamin Netanyahu (Primeiro-Ministro de Israel).

Primeiro que o número foi maior. Segundo porque estamos falando da crueldade nazista. Exemplos:

1 - Corpos de mulheres que tinham suas peles arrancadas e depois "coladas" novamente. Espera um tempo, repete o processo com a mesma pessoa viva. Eu disse viva;

2 - Crianças que passavam por cirurgias de inclusão de membros e viravam "monstros" com duas cabeças;

3 - Cobaia de Mengele: Adolescentes na faixa dos 14 anos recebiam injeções para ficar com febre, depois enfiavam agulhas grandes nas costas para coletar sangue;

4 - Câmaras de Gás (o mais conhecido nos livros de História);

5 - Fornos.


O nazismo queria exterminar uma raça pelo simples fato de serem judeus. Israel entrou em guerra com o Hamas para defender seu território. Se o problema é crônico ou não, questões que não foram bem resolvidas ou assentamentos ilegais, aí é outro tipo de debate, mas não justifica associação com o holocausto.

Claro que aqui temos pontos também de ponderação:

Primeiro: O serviço de inteligência de Israel é um dos maiores do mundo. Não conseguiram prever o ataque do Hamas? 

Segundo: Que civis morrem em guerras é previsível. É guerra! Que crianças iriam morrer porque o Hamas tem depósitos de armas em reservatórios embaixo de hospitais, também é previsível. Mas, o serviço de inteligência e a avançada forças armadas de Israel não conseguiriam mitigar os impactos? Plano de evacuação mais viável até em terras israelitas não era possível?

Aqui a crítica é política. E não contra os judeus. 

É coerente Lula criticar Israel pelos excessos das mortes. Estamos falando de crianças.

É coerente Lula reivindicar a soberania da Palestina como um país. Como a ONU fez com Israel. 

É INcoerente Lula não colocar a mesma energia de protesto contra o Hamas ou contra o Maduro na Venezuela. Aqui do nosso lado.

É INcoerente Lula comparar com o Holocausto.

Por falar em incoerências, o Brasil não deu abrigo adequado aos judeus perseguidos. Lembram de Olga Benário? Pelo contrário, abrigou após a segunda guerra um comandante nazista em São Paulo na fábrica da Volkswagen.

Por fim, penso que existem coerências e incoerências no discurso do Lula. No dualismo da incoerência acusar a prática de Israel com o Holocausto não faz sentido da mesma forma que não faz ao acusar Lula de ser antissemita. Pondere. Seja livre para opinar. Mas não se deixe facilmente enganar por narrativas de internet.

Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo

Fevereiro de 2024