domingo, 23 de agosto de 2026

Christopher Nolan e Dom Pedro II


 Christopher Nolan e Dom Pedro II

Há algo de curioso acontecendo nos cinemas em 2026. Milhares de pessoas estão atravessando as portas das salas para assistir a A Odisseia, o épico dirigido por Christopher Nolan. Algumas foram atraídas pelo nome do cineasta, responsável por filmes como Oppenheimer, A Origem e Interestelar. Outras chegaram ao cinema movidas por uma paixão muito mais antiga: a mitologia grega e a história de Odisseu, o herói que passou anos tentando voltar para casa depois da Guerra de Troia.

O sucesso do filme demonstra que, três mil anos depois de Homero, a história ainda conserva uma força extraordinária.

No Brasil, A Odisseia teve uma estreia particularmente expressiva. No primeiro fim de semana, o filme vendeu cerca de 850 mil ingressos no país, correspondendo a quase 40% de todos os ingressos vendidos nos cinemas brasileiros naquele período. No cenário internacional, a produção também se transformou em um fenômeno de bilheteria.

Mas existe uma história brasileira, quase esquecida, que torna essa viagem de Odisseu ainda mais interessante.

Pouca gente sabe que, no século XIX, um imperador brasileiro se debruçou sobre o mesmo poema que agora chega às telas pelas mãos de Christopher Nolan.

Seu nome era Dom Pedro II.

O imperador que estudava Homero

Dom Pedro II ficou conhecido principalmente como o segundo e último imperador do Brasil. Governou o país durante quase meio século, até a Proclamação da República, em 1889.

Mas havia outro Pedro II por trás do personagem político.

Havia o estudioso.

O homem apaixonado por línguas, literatura, história e ciência. Ao longo da vida, o imperador estudou diversos idiomas, entre eles grego, latim, alemão, francês, italiano, inglês, hebraico, árabe e sânscrito. A Biblioteca Nacional de Portugal registra que Dom Pedro II realizou uma tradução da Odisseia.

A relação do imperador com Homero não era, portanto, uma simples curiosidade de biblioteca.

Era um trabalho de estudo.

Dom Pedro II se dedicava à tradução diretamente a partir do grego e, em seus registros pessoais, demonstrava preocupação com as escolhas linguísticas e com a comparação entre diferentes versões do texto.

Uma pesquisa publicada na revista acadêmica Manuscrítica, da Universidade de São Paulo, registra que o imperador se dedicava à tradução da Odisseia desde 1887 e que comparava o original grego com traduções de Odorico Mendes e do francês Leconte de Lisle.

Imagine a cena.

Enquanto o Brasil imperial se aproximava de uma das maiores crises políticas de sua história, o imperador estava diante de um texto escrito muitos séculos antes de Cristo, tentando encontrar, em português, as palavras capazes de transportar para outro idioma a viagem de Odisseu.

É uma imagem quase cinematográfica.

A Odisseia de Dom Pedro II

É importante fazer uma distinção.

Dom Pedro II não publicou uma edição completa da Odisseia que tenha chegado até nós. A chamada “Odisseia de Dom Pedro II” é uma história mais misteriosa.

A existência de seu trabalho de tradução é documentada por seus diários e por estudos acadêmicos, mas o manuscrito integral dessa tradução não foi localizado.

Em outras palavras: sabemos que o imperador trabalhou na tradução. Sabemos que estudava o texto grego. Sabemos que comparava versões. Mas o manuscrito completo permanece desaparecido.

E talvez seja justamente essa ausência que torne a história tão fascinante.

O poema que fala de um homem perdido no mar também deixou, no Brasil, uma espécie de manuscrito perdido.

A viagem de Odisseu terminou em Ítaca.

A viagem da tradução de Dom Pedro II ainda não terminou.

Dois homens separados por séculos

Há uma ironia bonita nessa história.

Christopher Nolan precisou das maiores tecnologias cinematográficas disponíveis para transformar a Odisseia em espetáculo. O filme foi concebido como uma experiência monumental de cinema e se tornou um dos grandes fenômenos cinematográficos de 2026.

Dom Pedro II precisou de algo muito mais simples: papel, tinta, conhecimento de grego e uma mesa de trabalho.

Um construiu sua Odisseia com câmeras IMAX.

O outro tentou reconstruí-la com palavras.

Nolan leva Homero para as telas do século XXI.

Dom Pedro II tentou levar Homero para a língua portuguesa do século XIX.

Entre os dois existe um intervalo de quase um século e meio. Mas há algo que os aproxima: ambos compreenderam que a força de uma grande história não desaparece com o tempo.

Muda o idioma.

Muda a tecnologia.

Mudam os costumes.

Mudam os impérios.

Mas algumas histórias continuam navegando.

E agora, enquanto milhões de pessoas acompanham a jornada de Odisseu nas telas de cinema, vale lembrar que, muito antes de Christopher Nolan, um imperador brasileiro já havia aberto o poema de Homero e tentado atravessar aquele mar — palavra por palavra.

Christopher Nolan devolveu a Odisseia ao cinema. Dom Pedro II tentou devolvê-la à língua portuguesa.

E talvez essa seja a parte mais curiosa da história: algumas viagens nunca terminam.


Pedro Henrique Curvelo

Agosto de 2026

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A Copa para o Brasil nunca foi só futebol


 

A Copa do Mundo, para o Brasil, nunca foi só futebol.

É uma pausa no sofrimento de todos os dias.

É o trabalhador com o salário apertado, que parcela a compra do supermercado e faz malabarismos para chegar ao fim do mês.

É enfrentar o transporte público lotado, ter o celular roubado e continuar pagando as parcelas de um aparelho que já não está mais em suas mãos.

É abrir um pequeno comércio e, em algumas regiões, ainda conviver com a ameaça de milícias e facções criminosas.

É viver cansado de uma classe política que oferece discursos e narrativas, enquanto o cidadão espera soluções concretas.

A Copa não resolve nada disso.

Não aumenta o salário. Não reduz o preço dos alimentos. Não melhora o transporte. Não combate a violência.

Mas oferece uma pausa.

Um refrigério.

Foi assim em 1958, quando grande parte do Brasil ainda convivia com graves carências de infraestrutura e serviços básicos.

Em 1962, em meio à crise política, à polarização e às tensões da Guerra Fria.

Em 1970, durante os anos de chumbo da ditadura militar.

Em 1994, quando o país ainda chorava a morte de Ayrton Senna e, pouco mais de dois meses depois, celebrou o tetracampeonato.

E em 2002, quando o Brasil vivia uma histórica transição política (FHC para Lula).

Em diferentes épocas, a Copa esteve presente.

Não como solução.

Mas como pausa.

Ser eliminado faz parte do futebol. Nenhuma seleção vence para sempre.

O que o brasileiro não aceita é perder sem luta, sem entrega, sem sangue e sem suor.

Porque sangue e suor são justamente o que o povo coloca todos os dias para sobreviver.

Talvez seja por isso que cobramos tanto de quem veste a camisa da Seleção. Não exigimos apenas a vitória. Queremos olhar para o campo e reconhecer aquilo que conhecemos tão bem na vida: esforço, luta e entrega.

Mas existe uma verdade incômoda.

A Copa termina.

As bandeiras são guardadas. As ruas esvaziam. A televisão muda de assunto.

E o brasileiro volta para o mesmo ônibus lotado, para o mesmo salário apertado, para o mesmo medo da violência e para as mesmas contas que não param de chegar.

Os políticos continuam seus discursos. As promessas ganham novas embalagens. As narrativas mudam de lado.

E o cidadão continua pagando a conta.

Talvez o problema nunca tenha sido o brasileiro amar demais o futebol.

O problema é precisar de uma Copa do Mundo para ter alguns dias de esperança em um país que deveria oferecer muito mais do que noventa minutos de alegria.

A Copa passa.

A realidade fica.

E, nela, o povo brasileiro continua jogando todos os dias — quase sempre sem juiz, sem proteção e sem direito a prorrogação.

Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo
Julho de 2026

terça-feira, 19 de maio de 2026

A vida de Helena e a pauta da escala 6x1

 


Helena é uma mulher de 35 anos, moradora de Japeri, na Baixada Fluminense.

Todos os dias, Helena acorda às 5 da manhã para embarcar no trem da SuperVia em direção ao Centro do Rio, onde trabalha como balconista em uma loja de artigos para casa.

Apesar de os aplicativos apontarem duas horas de viagem, o planejamento do proletariado quase sempre é destruído pelos imprevistos do Grande Rio. Uma briga dentro do vagão. Um assédio. Um assalto. Uma falha no sistema.

Na estação de Nova Iguaçu, mais confusão. O trem precisou parar. Será necessário trocar de composição.

Aqui vale lembrar do sucateamento dos trens dos ramais Japeri e Santa Cruz. Vagões lotados, calor, atrasos e plataformas abarrotadas.

Um novo trem chega.

Mais empurra-empurra.

Mais gente tentando sobreviver ao próprio dia.

Helena consegue entrar.

Sentada? Não.

Vai em pé, tentando segurar um suporte mal projetado para alguém com um metro e sessenta de altura.

Depois de 2h30 de viagem, chega à Central do Brasil já atrasada. Da Central, segue andando quase correndo até a Rua Primeiro de Março. O dinheiro não é suficiente para mais uma passagem.

Exausta física e mentalmente, Helena ainda encontra forças para um pequeno gesto de amor-próprio: retoca a maquiagem e ajeita o cabelo antes de entrar no trabalho.

Seus pés já começam a doer.

Ela passa o dia inteiro em pé.

Enfim, a hora do almoço.

Helena esquenta a comida que foi amassada dentro da mochila durante a viagem de trem. Come rápido porque precisa voltar para atender clientes.

O expediente termina.

Apesar do cansaço, ainda sorri e brinca com os colegas. Uma delas também voltará de trem e descerá em Nilópolis.

Quando chega em casa, em Japeri, Helena sente bolhas se formando nos pés.

Mas o dia ainda não acabou.

A filha de 12 anos reclama que a internet não está funcionando. Reclamar para quem? Quem fornece internet na área é o Comando Vermelho.

Discussão. Estresse. Cansaço.

Mesmo assim, Helena ainda precisa fazer a comida da noite para ela e a filha. Enquanto cozinha, escuta ao fundo o barulho da novela da Globo misturado aos ruídos da vizinhança.

Já passam das 23h.

Helena toma banho e deita.

Dorme quase instantaneamente. Ou talvez nem seja sono. Seja desmaio de tão cansada.

Amanhã tudo começa outra vez.

E isso de segunda a sábado.

Domingo seria o dia do lazer.

Mas não é.

Domingo é dia de limpar a casa, lavar roupa e tentar organizar a semana seguinte. E, no fim das contas, que lazer existe para quem vive sob a pressão constante das facções e da falta de perspectiva?

A escala 6x1 aprisiona Helena.

Ela trabalha sem forças, mas continua acreditando que conseguirá dar um futuro melhor para a filha. Talvez, quem sabe, ainda tenha saúde quando chegar a aposentadoria. A prometida “alforria” depois de décadas de trabalho para sobreviver com um salário mínimo que mal dura até o fim do mês.

Ter uma escala 5x2 não transformaria Helena em rica.

Mas lhe daria algo raro: tempo.

Tempo para descansar.

Tempo para viver.

Tempo para existir além do trabalho.

Muitos dizem que reduzir a jornada quebraria a economia.

Também disseram que a abolição da escravatura quebraria o país.

Também disseram que férias remuneradas, descanso semanal e 13º salário seriam inviáveis.

No fim, o que realmente quebra o Brasil não é o descanso do trabalhador.

É a corrupção.

É o dinheiro público desviado.

É o privilégio de poucos sustentado pelo sacrifício de muitos.

A pauta pelo fim da escala 6x1 não é apenas econômica.

É humanitária.

Porque existem milhões de Helenas espalhadas pelo Brasil.

E amanhã, às 5 da manhã, enquanto boa parte da cidade ainda dorme, elas já estarão de pé outra vez.


Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo

Maio de 2026

domingo, 29 de março de 2026

A Moral da Dominação: Como Narrativas Religiosas Justificaram a Conquista nas Américas

 


Ao longo da história, a violência raramente se apresenta como violência. Em vez disso, ela assume a forma de virtude. Impérios não se anunciam como predadores — preferem se posicionar como agentes de liberdade, civilização, fé ou progresso. Essa construção narrativa não é acidental: ela é essencial para legitimar o poder.

Narrativa e Poder: A Base da Legitimidade

O poder precisa ser aceito para se sustentar. E essa aceitação nasce da narrativa.

Mais do que conquistar territórios, impérios precisam justificar suas ações. Para isso, constroem discursos que transformam:

  • exploração em missão
  • dominação em salvação
  • violência em dever moral

Esse processo é fundamental para moldar a percepção pública e controlar a memória histórica.


Colonização do Brasil: Catequese e Dominação

A colonização do Brasil é um exemplo claro dessa dinâmica. A expansão europeia, motivada por interesses econômicos e políticos, foi acompanhada por uma forte narrativa religiosa.

A catequese indígena era apresentada como uma missão espiritual: salvar almas e levar a fé cristã. Na Europa, circulavam imagens de indígenas participando de missas e sendo “civilizados”.

O que a narrativa ocultava?

Na prática, a realidade era muito diferente:

  • destruição de culturas indígenas
  • imposição de valores europeus
  • exploração de trabalho
  • violência física e simbólica
  • estupro de mulheres indígenas

A catequese funcionava como uma cortina moral, destacando aspectos positivos enquanto ocultava abusos e violência.


Estados Unidos: Destino Manifesto e Missão Divina

Nos Estados Unidos, a lógica foi semelhante, mas com uma formulação ideológica própria: o destino manifesto.

Essa ideia defendia que a expansão territorial era uma missão divina. Os colonos acreditavam estar cumprindo a vontade de Deus ao avançar sobre o continente.

Como os indígenas foram retratados?

Os povos indígenas foram enquadrados em duas categorias:

  • almas a serem salvas
  • obstáculos ao progresso

Em ambos os casos, a consequência era a mesma: a perda de território, cultura e autonomia.


Evangelização e Apagamento Cultural

Assim como no Brasil, a religião teve papel central nos EUA.

Missões religiosas e escolas foram criadas para “civilizar” os indígenas. Um dos exemplos mais marcantes foram os internatos indígenas, onde crianças eram separadas de suas famílias.  Sequestravam a criança dos pais para castrar sua essência cultural e identidade familiar.

O objetivo era claro: eliminar a identidade cultural indígena e substituí-la por valores ocidentais.

A espiritualidade, nesse contexto, deixou de ser apenas fé — tornou-se ferramenta de controle.


O Padrão Histórico: Violência com Discurso Moral

Ao comparar Brasil e Estados Unidos, surge um padrão consistente:

  1. Existe um interesse econômico ou territorial
  2. Cria-se uma narrativa moral ou religiosa
  3. Essa narrativa legitima a ação
  4. A violência é ocultada ou suavizada

Esse modelo não pertence apenas ao passado. Ele continua sendo utilizado em diferentes contextos políticos e geopolíticos. Exemplo: Milicianos no Rio de Janeiro que exploram o povo, mas participam de cultos evangélicos e fazem uma boa distribuição de ofertas e dízimos.


Narrativa e Memória: Quem Conta a História?

A história não é apenas o que aconteceu — é também o que foi contado sobre o que aconteceu.

Quem controla a narrativa controla:

  • a memória coletiva
  • a interpretação moral dos fatos
  • a percepção das futuras gerações

Por isso, analisar discursos é tão importante quanto analisar eventos.


Por fim, a utilização da religião como justificativa para a dominação revela uma das estratégias mais eficazes do poder: transformar interesses em valores universais.

Refletir sobre esse processo não significa simplificar a história, mas desenvolver um olhar crítico.

Sempre que uma ação for apresentada como moralmente elevada, vale perguntar:

O que está sendo mostrado — e o que está sendo ocultado?


Pense nisso!

Pedro H. Curvelo

Março de 2026

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando a "justiça" é inimiga da própria Justiça. A relação de um homem de 35 anos com uma adolescente de 12 anos

 


Assusta quando vemos que aqueles que deveriam ser os guardiões da lei se tornam defraudadores do que está escrito, da moral e do bom senso.

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais derrubou essa semana a sentença de primeira instância que havia condenado um homem de 35 anos acusado de estupr@r uma menina de apenas 12 anos.

Apesar de o Código Penal ser claro ao condenar a conjunção carnal com menor de 14 anos — e aqui não é preciso ser do ramo do Direito para entender isso — argumentou-se a existência de “vínculo afetivo consensual”. Chega a ser absurdo. Então agora meninas de 12 anos podem manter relação com homens adultos simplesmente porque consentiram? Outra loucura foi o argumento baseado no costume da cidade e porque teve a "benção" da mãe. 

Vale reforça que o homem de 35 anos também já tinha passagem na polícia por crimes como homicídio e tráfico de drogas. 

Agora pensem nas consequências: se amanhã homens adultos começarem a se relacionar com menores, mesmo com o consentimento dos pais, não serão penalizados? Teremos um padrão nesse absurdo?

Estamos falando da dignidade sexual das crianças e adolescentes. Toda defraudação, abuso ou opressão contra crianças e adolescentes revela uma degradação espiritual e moral de um país.

É dever da Sociedade em todas as esferas: religiosa, política, associações, imprensa e, principalmente jurídica, protestar contra esse acontecimento e decisão.

A justiça não pode cortar a própria vista para essa depravação.

Pense nisso!

Pedro H. Curvelo

Fevereiro 2026