Mostrando postagens com marcador RELIGIÃO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador RELIGIÃO. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de janeiro de 2026

Quando o Rei Paga: como política, mídia e religião manipulam narrativas de poder


 

Há uma pergunta incômoda que atravessa séculos e permanece urgente: quem paga a conta das narrativas que moldam nossa visão de mundo?

Por trás de filmes premiados, manchetes bem construídas, músicas emocionadas e sermões inflamados, muitas vezes existe menos compromisso com a verdade e mais compromisso com quem financia a história.

Menos fé.
Menos ética.
Mais conveniência.

Manipulação de narrativas e poder político

Quando o rei paga, a narrativa muda.

Músicos passam a ouvir virtudes onde antes havia ruído.
Poetas encontram luz em quartos escuros.
Roteiristas transformam tiranos em heróis.

Não porque o governante tenha mudado, mas porque a narrativa política mudou de dono.

O poder político sempre entendeu que controlar histórias é tão estratégico quanto controlar exércitos.

Indústria cultural, cinema e propaganda ideológica

Quando o rei paga, a arte deixa de confrontar e passa a confortar.

Filmes reescrevem personagens.
Canções suavizam biografias.
Prêmios legitimam versões.

A indústria cultural cria mitologias modernas onde líderes são apresentados como salvadores, e não como agentes de interesses.

Não é errado potencializar o positivo — o erro é abortar o bom senso

Não há nada de errado em destacar virtudes quando se é pago para comunicar.

O problema começa quando, para cumprir esse papel, abortamos o bom senso, abortamos os valores e abortamos o nosso lado humano.

Quando maquiamos o grotesco.
Normalizamos abusos.
E pintamos sepulcros caiados como exemplos de virtude.

Aqui, a comunicação deixa de informar.
Passa a manipular.

Mídia, jornais e a higienização da realidade

Quando o rei paga, crimes viram equívocos.
Escândalos viram ruídos.
Fracassos viram desafios.

A mídia não mente diretamente.
Ela suaviza.

E quem suaviza, muitas vezes, esconde.

Influenciadores e o novo marketing político

Nos dias atuais, influenciadores se tornaram peças centrais da propaganda política.

Eles não defendem abertamente.
Mas sugerem.
Não declaram apoio.
Mas sinalizam.

É apoio sem assinatura.
Propaganda sem carimbo.

Religião, poder e a profanação do sagrado

Quando o rei paga, alguns líderes religiosos esticam versículos até sangrar.

O texto sagrado, que deveria confrontar reis, passa a legitimar tronos.

Aqui ocorre algo ainda mais grave: o sagrado é profanado.

O altar vira palanque.
O púlpito vira tribuna.
Deus vira argumento.

Tudo para beatificar, entre aspas, a atuação de um rei.

Controle do imaginário: ontem e hoje

Ontem eram bardos e arautos.
Hoje são estúdios, redações e algoritmos.

Mudam os meios.
Permanece a lógica: quem controla o imaginário controla o poder.

Quando o pagamento compra consciência

O dinheiro não é o vilão.

O problema é quando ele compra silêncio.
Compra distorção.
Compra louvor.

Nesse ponto, a arte deixa de ser arte.
A fé deixa de ser fé.
A palavra deixa de ser palavra.

Tudo vira mercadoria.

A pergunta que desmonta qualquer narrativa

Diante de discursos inflamados, filmes emocionantes e sermões reveladores, talvez a pergunta mais honesta seja:

quem está pagando?

Não para invalidar toda voz.
Mas para aprender a desconfiar.

Porque, quase sempre, quando o rei paga, não ouvimos convicções.

Ouvimos recibos.

Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo

Janeiro de 2026

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

OS FINS ECONÔMICOS JUSTIFICAM OS MEIOS RELIGIOSOS




Você conhece a velha frase: “Os fins justificam os meios”. Apesar de, erroneamente, associarem a frase à Maquiavel, não há como provar que o autor de O Príncipe tenha escrito ou falado isso.
Vou adaptar a frase para “Os fins econômicos justificam os meios religiosos”. Digo com essa frase que o poder econômico é o que respalda a ação de qualquer entidade. Com isso, se for necessário utilizar o discurso religioso para alcançar esse fim, que assim seja.

A grande empreitada dos reis católicos para expandir a fé cristã nas américas é uma prova disso. Financiar missionários era uma forma de preparar o terreno para a exploração. Os EUA e a Inglaterra também fizeram com missionários protestantes.

Eu poderia em ordem cronológica abordar as evidências ao longo dos anos, mas quero chegar rapidamente ao ponto que o Brasil vive com um novo presidente. Que possui um discurso totalmente afinado com o conservadorismo cristão.

A expressão política “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” fortalece a posição de Bolsonaro com relação aos evangélicos e católicos. Abre, inclusive, as portas do aeroporto para a visita do Primeiro Ministro de Israel, Netanyahu. A primeira de um chefe do estado judeu desde a sua fundação.

Em volta do Netanyahu há muita euforia. Desde a pose para foto do Silas Malafaia, o selo dos Correios até a do próprio chefe de Estado Israelense. Fortalecer o vínculo espiritual de parceria entre evangélicos e judeus, Brasil e Israel, traz um ganho econômico muito grande. O apoio do Brasil para a mudança da embaixada para Jerusalém, ampliação do turismo religioso e compra de tecnologia de segurança por parte do Brasil de Israel (Sim! Eles são referências nessa área).

Por fim, lembre-se que para fortalecer o poder é possível até que coloquem argumentos religiosos nas relações políticas. Isso é comum. Sempre aconteceu e sempre acontecerá. Não espere um “messianismo” de um líder. Mesmo que tenha “Messias” no sobrenome ou aliança com Israel. Encare-o como humano e político. Onde o seu sucesso dependerá de acordos e diálogo.

Feliz 2019!

Pedro Curvelo
Dezembro de 2018
Imagem: https://medium.com/@charlesomoregie/uma-carta-aos-meus-amigos-crist%C3%A3os-que-apoiam-o-bolsonaro-c8b466dcf0d0

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

SE CONVERTENDO EM DEUS (Pontifex Maximus)



Nossa história tem diversos ícones de seres humanos, líderes políticos, que se "converteram em deus".
Desde a figura do Faraó no Egito até Júlio César, ditador romano, que se tornou Sumo Sacerdote (Pontifex Maximus) e depois em um "deus vivo". Para ser mais atual, Hitler ao se comparar com o "Espírito Santo" em um dos seus discursos.

A política sempre precisou buscar um cunho religioso. Tudo para inflar o ego do personagem político. O último estágio nessa ação é colocar o "trono nas alturas". Até no comunismo essa prerrogativa foi utilizada. Por um outro viés, o de combater a religião. Não em nome da laicidade do estado, e sim, para combater a religião e fortalecer o "braço de prata" do Estado (livro do profeta Daniel na Bíblia).

Na história da Igreja Católica Romana, o Papa Leão I (440-461) abraçou esse título, visto que era a consolidação do poder político romano com a nova religião, o Cristianismo. Até hoje é mantido no papado esse título. Afinal, o Vaticano é um Estado Teocrático. 

O tempo nos revela o quão traiçoeiro é essa relação. Política junto com a religião fortalece os interesses de um grupo ou líder político. A oratória política ganha vida quando o "nome de Deus é usado em vão". Belo exemplo foi a votação do impeachment da Dilma. Foi tanto "em nome de Deus" que parecia um exorcismo na política.

Os efeitos colaterais da chamada "bancada evangélica" são maiores que os benefícios. Observem a operação Lava Jato que revelou vários parlamentares evangélicos. Observem Eduardo Cunha e suas campanhas na Rádio Melodia no Rio de Janeiro. "O povo merece respeito!" Esse irônico slogan de Cunha prejudicou a imagem dos evangélicos na política. Em suas campanhas políticas, por exemplo, era frequente o Pastor Silas Malafaia e o RR Soares chamando Cunha de "homem de Deus". O povo dizendo amém, ao invés da criticidade que a história do protestantismo nos ensinou.

Assim, devemos entender que Religião e Política tendem a fortalecer o poder temporário. Em detrimento, na maior parte, da religiosidade individual. Natural termos políticos religiosos. No entanto, envolver o altar da instituição religiosa com o palanque político é perigoso.

Pense Nisso!

Pedro Henrique Curvelo
Agosto de 2016

Imagens:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Imperador_romano
https://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Le%C3%A3o_I
http://germanoreis.com/politica-com-humor-deus-reclama-de-usarem-o-nome-dele-na-votacao-de-impeachment-de-dilma-rousseff/

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

DORMINDO AO LADO DO DIABO - Uma reflexão sobre a Reforma do Papa Francisco


 
 
A luta do Papa Francisco contra a corrupção da Igreja Católica será árdua. Primeiro porque isso é um mal do ser humano, a tendência à corrupção, segundo por causa de uma instituição política com viés religioso, que é o Vaticano. É muito difícil equilibrar um Estado Religioso. De um lado a balança do pragmatismo político, do outro, o discurso do contentamento e amor cristão.

Já havia sinalizado algo semelhante em um texto que escrevi ano passado: http://phcurvelo.blogspot.com.br/2014/12/o-cajado-politico-do-papa-francisco.html

Pelo princípio cristão, Francisco já teria se encontrado com Dalai Lama. No entanto, pelo viés político, não é prudente gerar rachaduras com o governo Chinês.

Agora é a vez dos mafiosos religiosos de batina.
Onde está a raiz da corrupção? A ganância pelo dinheiro e poder. O Papa contesta a gestão financeira do Vaticano, mas, manter um banco ligado a uma religião é dormir ao lado do diabo.

A atuação do Papa é louvável e honrada. O que esperamos do seu cargo. O risco é que mexer em um buraco que só tem cobras, criadas durante séculos, é muito difícil não se ferir.

Pedro Curvelo

Novembro de 2015
 

sábado, 10 de janeiro de 2015

UM ESPELHO, UMA IMAGEM E UMA PESSOA - Reflexão sobre o atentado terrorista na França



Certo viajante uma vez contou a seguinte história:

Nos tempos mitológicos, onde a fantasia trazia cores para o preto e branco da realidade do homem, havia um único espelho. Neste, deuses, anjos e homens se juntavam para contemplar a Imagem.

Imagem! Representação de uma ideia que interpretamos e aceitamos como real. Um fantasma que não assusta. Um portal que mostra o mesmo mundo e face que conhecemos, mas sob um outro ângulo.

Um espelho onde todos olhavam. A imagem refletida do todo gerava a contemplação do um. Um gerado pelo todo. Todos os homens se tornando um homem. Todos os deuses se fundindo no espelho e gerando um único deus.

Ver todos os homens no espelho e considera-los um se tornou normal. A normalidade virou rotina. Vez ou outra, todos se uniam e olhavam para o único espelho e viam apenas uma imagem.

O que era rotina foi surpreendido pelo acaso. O “de repente”. De repente o espelho perdeu estabilidade e quebrou. Com a queda, fragmentos se espalharam pela terra e pelo céu. Assustados com o imprevisto, todos correram para pegar um pedaço e garantir uma parte da Imagem. A cooperação deu lugar para o egoísmo. A inteligência para fundir os pedaços de vidro, deu lugar para a ignorância.

Separados, o todo do um, só era possível para cada homem e deus ver em parte a Imagem. Pela limitação dos pedaços um homem só enxergava a si mesmo. Não tinha espaço para olhar o semelhante. Um deus só contemplava sua personalidade e nome. O pedaço que cada um tinha só tornava possível a contemplação do um.

No início foi estranho. Depois o estranho cauterizou a consciência. Foi comum então olhar para um pedaço do espelho e considera-lo o espelho. Foi comum um homem olhar para um espelho e pensar que apenas ele era o todo. Pois, era o que sua ótica mostrava.

Assim seguimos. Matamos em nome de Jeová, Alá, Maomé e Jesus. A mão de todos os homens está suja em nome do seu deus ou em nome do poder econômico e político travestido de discurso religioso.

Não percebemos que matamos a nós mesmos. Destruímos a Imagem do que é Deus e do que é homem. Os poucos fragmentos do vidro que poderiam ser unidos estão ficando extintos.

Um dia o meu vidro voltará para a areia. O seu também. Então, perceberemos que éramos um no nascimento, como um seremos na morte.

Como viajante, sigo o meu caminho. Comungando com outros viajantes. Todos no mesmo Caminho.

Pedro Henrique Curvelo

Janeiro de 2015

sábado, 20 de dezembro de 2014

O CAJADO POLÍTICO DO PAPA FRANCISCO CONTRA DALAI LAMA



O que é o Vaticano?
O que sempre foi: Um Estado político e religioso. Com essa característica, o que é delicado de se administrar é a coexistência paradoxal entre o pragmatismo político e o moralismo religioso.

A recusa do Papa Francisco em se encontrar com Dalai Lama mostra a supremacia política em detrimento dos valores religiosos dentro do Vaticano. Nesse exemplo específico, tudo para não gerar ruídos com a China.

Francisco, que em seus discursos prega o ecumenismo, ao recusar um encontro com o líder tibetano, reforça o separatismo que a política e a religião geram. Ponto este, que Jesus sempre combateu na sua época com relação ao separatismo entre os judeus e os samaritanos.

O Vaticano zela pelo seu império de forma absoluta. Zelar pelos valores cristãos é parcial. Esta, mostrada quando a corda política aperta! O viés político sempre prevaleceu no catolicismo. Desde os Bórgias até Pio XII que preferiu acender uma vela para o Nazismo para que a vela do comunismo fosse apagada e as paredes da casa de Pedro não caíssem. Mesmo que o efeito colateral disso fosse a perseguição aos judeus.

Papa Francisco, como ser humano, pode seguir os princípios cristãos e tentar inseri-los ao máximo em seu trabalho sacerdotal. No entanto, enquanto existir um Estado religioso, terá que manter a coligação entre os meios de Maquiavel para alcançar e sustentar os fins.

Pedro Curvelo
Dezembro de 2014

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O ESTUPRO DA VIDA PRIVADA



O Brasil nunca conseguiu separar a vida privada da social. E olha que nunca fomos um país comunista. Mas, calma! Isso não é de agora. Temos essa defraudação nas nossas raízes históricas. O grande historiador, Gilberto Freyre, em seu livro "Casa Grande e Senzala" vai abordar justamente isso. A prisão da vida privada.

Quando nossa nação era colônia e depois império, a vida particular era controlada pelo Estado. Por Estado, entenda a fusão entre política e religião católica. O que você come, quanto você gasta, com quem você transa e para quem você está rezando, tudo era monitorado, pelo Estado ou pelos vizinhos. Na parte da religião, os judeus e os protestantes tiveram dificuldade de viver sua fé no âmbito privado.

A mesma situação se aplica hoje. Eu observo as eleições atuais, as propostas e me assusto. A vida privada é colocada mais em pauta do que questões do comum, do todo, da sociedade. Exemplo: como enfrentaremos a recessão? Como lidaremos com a alta carga tributária? E assim por diante.

No entanto, o que se vê é: o candidato A é a favor do casamento gay? O candidato B é evangélico? O candidato C gosta de prostitutas? No emaranhado de interrogações coloco mais uma: o que a vida privada com isso?

Os políticos replicam o que é prática da sociedade. Nossa individualidade é invadida a todo instante.

Se você se relaciona com uma pessoa do mesmo sexo, por exemplo, isso é colocado em um tribunal social e você é exposto. Se você sai de uma "casa de massagem", o relaxamento que você conseguido, rapidamente vai embora porque os “sentinelas do puritanismo” irão questionar.

No aspecto religioso é a mesma coisa. A fé habita no ambiente particular. No entanto, se você sai de uma instituição religiosa, é visto de forma depreciativa, qualificado como "desviado" ou condenado com a frase "vai para o inferno". Infelizmente, temos facilidade em sacrificar o ser humano por causa das nossas crenças.


Precisamos passar por um processo de mudança de consciência. Entender que o privado só pode ser invadido quando prejudica a sociedade. Do contrário, voltamos a Idade Média, onde quem praticava na vida privada a bruxaria era queimado. Quem não era, mas fosse acusado, também iria para a fogueira. Não estamos longe disso. Somos um povo que não sabemos digerir, colocamos na boca e vomitamos. Vejam o caso daquela mulher de Guarujá que foi linchada na rua acusada de bruxaria e sacrifício de crianças. Tudo por causa de uma fofoca do Facebook.

A menina que chamou o goleiro do Santos de "macaco", teve a casa atacada.

São diversos incidentes que se eu escrever irão virar uma enciclopédia.

A discrição e a preservação da nossa vida privada é essencial para a nossa saúde social.


Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo
Outubro de 2014

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

MESSIANISMO POLÍTICO



A relação entre política e religião é literalmente a figura do lobo se vestindo de ovelha. A peculiaridade nesse caso é a indefinição de quem é lobo e quem é ovelha. É um estado de metamorfose, pois, em algum momento histórico a política pode usar a religião, outro esta a aquela e, até mesmo, um defraudar o outro.

É um processo totalmente incoerente. Onde se é capaz de se sujar com água e se lavar com sangue. Nesse antagonismo poucos enxergam.

Política e religião sempre viveram juntas, no Antigo Egito eram fundidas onde o líder político (Faraó) era também a encarnação do divino. Os hebreus se constituíram como nação escolhida por uma ordem divina. Na Europa Absolutista os reis tinham o selo da eleição divina. E a Igreja Católica construiu o seu próprio Estado: O Vaticano.

Nessas eleições é possível ver o messianismo político. Alguns encaram a Marina como a escolhida de Deus, apesar dela ser totalmente discreta com a sua fé. Dilma sobe no altar do Manuel Ferreira e diz que "feliz é a nação cujo Deus é o Senhor". O PSC lança um candidato que é pastor.

Os religiosos querem garantias contra o "kit gay", obrigação da inclusão da bíblia em bibliotecas, mas, não protestam contra a corrupção. São capazes de se calar diante, por exemplo, dos escândalos de corrupção do PT para garantir favores políticos, como concessões na televisão e rádio. Conseguem fazer uma oração abençoando Arruda em pleno ato de corrupção. Se vendem por pouco. De fato, conseguem "engolir um camelo e se engasgarem com uma mosca".

Existem momentos onde essa relação é quebrada. Como na época de Jesus, onde alguns esperavam que ele reivindicasse o poder político e religioso. No entanto, não o fez. Deixou "César" de um lado e o "templo" do outro lado. Seguiu apenas o seu caminho.


Nossas estruturas sociais não separam o político da religião. Mas, nas nossas consciências poderemos fazer esse divisor. Preservando a nossa relação com o Sagrado e encarando as questões políticas na ótica do racionalíssimo político. Assim, nossa fé será verdadeira em nós e nosso lado político amadurecido em conhecimento e atitude.

Pense nisso!

Pedro Curvelo
Agosto de 2014

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A TRÍADE DO CAMINHO: UMA PROSTITUTA, UMA RELIGIOSA E SANDRA, SIMPLESMENTE



Ela faz isso desde os 14 anos. O que ela faz? Ir para a cama e viver a ciranda da putaria. Toques, cheiros, penetrações e vários nomes.

Ela sabia que a cada transa seu ser era enterrado vivo. Ela nunca quis trabalhar na sua cidade natal. O motivo? Seus pais poderiam descobrir. Dessa forma, dizia que trabalhava em uma outra cidade como executiva. Esta, até aparece em algumas fantasias, mas nem sempre. Nessas transformações, a cada ejaculação que tinha que engolir (ou fingir), sentia dor na alma. Ela não era uma puta de verdade. Estava ali para juntar um dinheiro e se mandar para a Europa. Mas, qual o valor estipulado? Ela nunca definiu. Enquanto isso, várias mãos/pintos já passaram pelo seu corpo. Imaginar que na infância ela queria ser médica.

Ela, a outra, sabia que em cada culto, rito religioso, amordaçava o seu verdadeiro eu. Entrava em um molde e sustentava com “a paz do Senhor”, “amém irmão”, “tá amarrado”, “recebo”, “em nome de Jesus”, “essa benção é minha”, “o diabo tá furioso”, “o Senhor me revelou” e por aí vai. Falaram para ela sobre o caminho do autoconhecimento, do “trancar o quarto” e sobre o silêncio. Mas, ao aquietar a alma, foi transportada para um espelho. Se assustou! Gritou! Era um fantasma? Não. Era ela mesma. Preferiu sair correndo, entrar para uma corrente qualquer, continuar com o check list do moralismo religioso e olhar para o pedaço de madeira que está no olho do próximo. É mais fácil e todo mundo faz isso. Agora, mais do que nunca, postando frases religiosas no Facebook.

Sandra, simplesmente se arrumou. Era o dia da sua formatura. Olhou no espelho e se admirou, mesmo sem maquiagem. Lembrou do primeiro dia de aula, do período em que descobriu sua matéria favorita, a troca de olhares com o João, o bar com as amigas depois da aula de sexta, a morte de um professor querido, o sabor do comungar com diversas pessoas e trocar energias e culturas. De vários universos, ela construiu o seu. Tão místico que o espelho não refletia. Apenas sua consciência, em parte o João e sua mãe e no todo o Eterno. Este, ela reverencia todos os dias no trem, meditava em um livro sagrado e lavava os pés de algumas pessoas em silêncio. Tanta discrição que eu não consegui descobrir os nomes dessas pessoas do Caminho para escrever nesse texto. Era assim, tanto sua vida sexual quanto fé eram tão preciosas que falar demais, seria como espalhar pérolas aos porcos. Mas, no seu caminhar, víamos sua essência, riqueza de humanidade, não havia um lado oculto nela, havia modéstia, o que é bastante diferente. Não havia formas e aparências, havia simplesmente ela: Sandra.


Termino aqui esse texto. Sandra sorri e sai correndo para a sua formatura. Antes fecha os olhos para agradecer alguém que ninguém enxerga. Por fim, não registrei o nome da prostituta e nem o da religiosa. O motivo? Ao perguntar, simplesmente não souberam responder.

Pedro Henrique Curvelo
Dezembro de 2014