Christopher Nolan e Dom Pedro II
Há algo de curioso acontecendo nos cinemas em 2026. Milhares de pessoas estão atravessando as portas das salas para assistir a A Odisseia, o épico dirigido por Christopher Nolan. Algumas foram atraídas pelo nome do cineasta, responsável por filmes como Oppenheimer, A Origem e Interestelar. Outras chegaram ao cinema movidas por uma paixão muito mais antiga: a mitologia grega e a história de Odisseu, o herói que passou anos tentando voltar para casa depois da Guerra de Troia.
O sucesso do filme demonstra que, três mil anos depois de Homero, a história ainda conserva uma força extraordinária.
No Brasil, A Odisseia teve uma estreia particularmente expressiva. No primeiro fim de semana, o filme vendeu cerca de 850 mil ingressos no país, correspondendo a quase 40% de todos os ingressos vendidos nos cinemas brasileiros naquele período. No cenário internacional, a produção também se transformou em um fenômeno de bilheteria.
Mas existe uma história brasileira, quase esquecida, que torna essa viagem de Odisseu ainda mais interessante.
Pouca gente sabe que, no século XIX, um imperador brasileiro se debruçou sobre o mesmo poema que agora chega às telas pelas mãos de Christopher Nolan.
Seu nome era Dom Pedro II.
O imperador que estudava Homero
Dom Pedro II ficou conhecido principalmente como o segundo e último imperador do Brasil. Governou o país durante quase meio século, até a Proclamação da República, em 1889.
Mas havia outro Pedro II por trás do personagem político.
Havia o estudioso.
O homem apaixonado por línguas, literatura, história e ciência. Ao longo da vida, o imperador estudou diversos idiomas, entre eles grego, latim, alemão, francês, italiano, inglês, hebraico, árabe e sânscrito. A Biblioteca Nacional de Portugal registra que Dom Pedro II realizou uma tradução da Odisseia.
A relação do imperador com Homero não era, portanto, uma simples curiosidade de biblioteca.
Era um trabalho de estudo.
Dom Pedro II se dedicava à tradução diretamente a partir do grego e, em seus registros pessoais, demonstrava preocupação com as escolhas linguísticas e com a comparação entre diferentes versões do texto.
Uma pesquisa publicada na revista acadêmica Manuscrítica, da Universidade de São Paulo, registra que o imperador se dedicava à tradução da Odisseia desde 1887 e que comparava o original grego com traduções de Odorico Mendes e do francês Leconte de Lisle.
Imagine a cena.
Enquanto o Brasil imperial se aproximava de uma das maiores crises políticas de sua história, o imperador estava diante de um texto escrito muitos séculos antes de Cristo, tentando encontrar, em português, as palavras capazes de transportar para outro idioma a viagem de Odisseu.
É uma imagem quase cinematográfica.
A Odisseia de Dom Pedro II
É importante fazer uma distinção.
Dom Pedro II não publicou uma edição completa da Odisseia que tenha chegado até nós. A chamada “Odisseia de Dom Pedro II” é uma história mais misteriosa.
A existência de seu trabalho de tradução é documentada por seus diários e por estudos acadêmicos, mas o manuscrito integral dessa tradução não foi localizado.
Em outras palavras: sabemos que o imperador trabalhou na tradução. Sabemos que estudava o texto grego. Sabemos que comparava versões. Mas o manuscrito completo permanece desaparecido.
E talvez seja justamente essa ausência que torne a história tão fascinante.
O poema que fala de um homem perdido no mar também deixou, no Brasil, uma espécie de manuscrito perdido.
A viagem de Odisseu terminou em Ítaca.
A viagem da tradução de Dom Pedro II ainda não terminou.
Dois homens separados por séculos
Há uma ironia bonita nessa história.
Christopher Nolan precisou das maiores tecnologias cinematográficas disponíveis para transformar a Odisseia em espetáculo. O filme foi concebido como uma experiência monumental de cinema e se tornou um dos grandes fenômenos cinematográficos de 2026.
Dom Pedro II precisou de algo muito mais simples: papel, tinta, conhecimento de grego e uma mesa de trabalho.
Um construiu sua Odisseia com câmeras IMAX.
O outro tentou reconstruí-la com palavras.
Nolan leva Homero para as telas do século XXI.
Dom Pedro II tentou levar Homero para a língua portuguesa do século XIX.
Entre os dois existe um intervalo de quase um século e meio. Mas há algo que os aproxima: ambos compreenderam que a força de uma grande história não desaparece com o tempo.
Muda o idioma.
Muda a tecnologia.
Mudam os costumes.
Mudam os impérios.
Mas algumas histórias continuam navegando.
E agora, enquanto milhões de pessoas acompanham a jornada de Odisseu nas telas de cinema, vale lembrar que, muito antes de Christopher Nolan, um imperador brasileiro já havia aberto o poema de Homero e tentado atravessar aquele mar — palavra por palavra.
Christopher Nolan devolveu a Odisseia ao cinema. Dom Pedro II tentou devolvê-la à língua portuguesa.
E talvez essa seja a parte mais curiosa da história: algumas viagens nunca terminam.

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