Helena é uma mulher de 35 anos, moradora de Japeri, na Baixada Fluminense.
Todos os dias, Helena acorda às 5 da manhã para embarcar no trem da SuperVia em direção ao Centro do Rio, onde trabalha como balconista em uma loja de artigos para casa.
Apesar de os aplicativos apontarem duas horas de viagem, o planejamento do proletariado quase sempre é destruído pelos imprevistos do Grande Rio. Uma briga dentro do vagão. Um assédio. Um assalto. Uma falha no sistema.
Na estação de Nova Iguaçu, mais confusão. O trem precisou parar. Será necessário trocar de composição.
Aqui vale lembrar do sucateamento dos trens dos ramais Japeri e Santa Cruz. Vagões lotados, calor, atrasos e plataformas abarrotadas.
Um novo trem chega.
Mais empurra-empurra.
Mais gente tentando sobreviver ao próprio dia.
Helena consegue entrar.
Sentada? Não.
Vai em pé, tentando segurar um suporte mal projetado para alguém com um metro e sessenta de altura.
Depois de 2h30 de viagem, chega à Central do Brasil já atrasada. Da Central, segue andando quase correndo até a Rua Primeiro de Março. O dinheiro não é suficiente para mais uma passagem.
Exausta física e mentalmente, Helena ainda encontra forças para um pequeno gesto de amor-próprio: retoca a maquiagem e ajeita o cabelo antes de entrar no trabalho.
Seus pés já começam a doer.
Ela passa o dia inteiro em pé.
Enfim, a hora do almoço.
Helena esquenta a comida que foi amassada dentro da mochila durante a viagem de trem. Come rápido porque precisa voltar para atender clientes.
O expediente termina.
Apesar do cansaço, ainda sorri e brinca com os colegas. Uma delas também voltará de trem e descerá em Nilópolis.
Quando chega em casa, em Japeri, Helena sente bolhas se formando nos pés.
Mas o dia ainda não acabou.
A filha de 12 anos reclama que a internet não está funcionando. Reclamar para quem? Quem fornece internet na área é o Comando Vermelho.
Discussão. Estresse. Cansaço.
Mesmo assim, Helena ainda precisa fazer a comida da noite para ela e a filha. Enquanto cozinha, escuta ao fundo o barulho da novela da Globo misturado aos ruídos da vizinhança.
Já passam das 23h.
Helena toma banho e deita.
Dorme quase instantaneamente. Ou talvez nem seja sono. Seja desmaio de tão cansada.
Amanhã tudo começa outra vez.
E isso de segunda a sábado.
Domingo seria o dia do lazer.
Mas não é.
Domingo é dia de limpar a casa, lavar roupa e tentar organizar a semana seguinte. E, no fim das contas, que lazer existe para quem vive sob a pressão constante das facções e da falta de perspectiva?
A escala 6x1 aprisiona Helena.
Ela trabalha sem forças, mas continua acreditando que conseguirá dar um futuro melhor para a filha. Talvez, quem sabe, ainda tenha saúde quando chegar a aposentadoria. A prometida “alforria” depois de décadas de trabalho para sobreviver com um salário mínimo que mal dura até o fim do mês.
Ter uma escala 5x2 não transformaria Helena em rica.
Mas lhe daria algo raro: tempo.
Tempo para descansar.
Tempo para viver.
Tempo para existir além do trabalho.
Muitos dizem que reduzir a jornada quebraria a economia.
Também disseram que a abolição da escravatura quebraria o país.
Também disseram que férias remuneradas, descanso semanal e 13º salário seriam inviáveis.
No fim, o que realmente quebra o Brasil não é o descanso do trabalhador.
É a corrupção.
É o dinheiro público desviado.
É o privilégio de poucos sustentado pelo sacrifício de muitos.
A pauta pelo fim da escala 6x1 não é apenas econômica.
É humanitária.
Porque existem milhões de Helenas espalhadas pelo Brasil.
E amanhã, às 5 da manhã, enquanto boa parte da cidade ainda dorme, elas já estarão de pé outra vez.
Pense nisso!
Pedro Henrique Curvelo
Maio de 2026
