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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Um princípio silencioso para 2026: gratidão como alinhamento com a realidade


 


Às vésperas de um novo ano, somos empurrados a promessas, metas e expectativas. Mas talvez 2026 não precise de mais controle. Talvez precise, antes, de um princípio silencioso — algo que organize o olhar antes de organizar a vida.

A gratidão, quando bem compreendida, não é emoção passageira nem obrigação religiosa. Ela não muda Deus. Ela organiza o ser humano.

Existe um equívoco recorrente no campo religioso: a ideia de que Deus precisa ser agradecido, como se dependesse do reconhecimento humano para permanecer pleno. Essa noção não se sustenta.

A tradição espiritual no Islamismo (Surata 31:12) é clara: quem agradece, agradece em benefício próprio. Deus é pleno, autossuficiente, digno de louvor independentemente da resposta humana. O agradecimento não acrescenta nada ao divino — transforma quem agradece.

Deus não entra em carência por falta de louvor.
Não se altera.
Não se empobrece.

A gratidão, portanto, não é um favor prestado a Deus. É um cuidado com a consciência humana.

Quando entendida assim, ela deixa de ser moralismo e passa a ser reorganização interior. Não nega a dor nem romantiza a realidade. Apenas reconhece que, mesmo em meio ao caos, ainda existe sustentação suficiente para manter a lucidez.

No cristianismo, a espiritualidade não retira o ser humano do mundo — ensina a habitá-lo melhor. A ação de graças não alimenta Deus; educa o coração humano, libertando-o da murmuração, do ressentimento e da ilusão de controle absoluto. A graça já existe. Agradecer é reconhecê-la.

O estoicismo chega à mesma conclusão: não são os fatos que perturbam, mas os juízos. A gratidão reorganiza o julgamento. Ela desloca o foco do que falta para o que sustenta, da ameaça para a suficiência possível. Não é emoção. É lucidez treinada.

A psicologia moderna apenas confirmou isso: a gratidão reduz ansiedade, diminui a ruminação e fortalece a resiliência porque reorganiza a percepção. A mente humana não foi feita para habitar permanentemente a lógica da escassez.

A ingratidão não fere o Sagrado.
Não diminui o Absoluto.

Ela fere quem a pratica.

Ao agradecer, o ser humano não alimenta Deus — protege a si mesmo. Deus permanece pleno. O homem, ao agradecer, torna-se menos fragmentado.

Talvez por isso a gratidão atravesse religiões, filosofias e culturas não como imposição divina, mas como necessidade humana fundamental.

Feliz Ano Novo!

Pedro H. Curvelo

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Papa Francisco: In Paradisum, uma despedida de fé e humanidade

 




A morte de Papa Francisco marca não apenas o fim de um pontificado, mas o encerramento de uma era que tocou os corações além das fronteiras do Vaticano. Jorge Mario Bergoglio, o primeiro papa latino-americano, argentino de alma simples e profunda humanidade, despediu-se do mundo exatamente como viveu: com ternura, coragem e serenidade.


Francisco nunca se limitou aos muros de Roma. Seu papado foi itinerante e presente — visitando favelas, campos de refugiados, prisões e zonas de guerra. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, pegou engarrafamento no Centro da Cidade (rs).  Mais do que um chefe de Estado, ele foi um pastor que buscou as ovelhas, principalmente as mais esquecidas. Foi no diálogo aberto com diferentes religiões, na acolhida dos imigrantes e no apelo constante à paz que ele se tornou uma referência moral em tempos tão divididos.


Sua simplicidade sempre foi sua marca. Desde o dia de sua eleição, recusando as vestes luxuosas e optando por morar na Casa Santa Marta ao invés do Palácio Apostólico, Francisco se apresentou ao mundo como alguém que queria servir, e não ser servido. Ele trouxe a leveza da humildade e a força do exemplo para um papado que sabia ser observado em cada gesto. Fez piada, com forma carinhosa, dizendo que "brasileiro não tem salvação. Muita cachaça e pouca oração". 


Mas sobre seus ombros repousavam pesos enormes: a idade avançada, as doenças que progressivamente fragilizavam seu corpo, e também as críticas severas. Francisco foi acusado por alguns de heresia, de relativizar princípios inegociáveis da fé. Outros o atacaram por suas posturas sociais, associando sua defesa dos pobres e dos marginalizados a um alinhamento com ideologias de esquerda, especialmente o comunismo — acusações que ele, com paciência e doçura, enfrentava sem perder sua missão de construir pontes.


Sua história pessoal sempre foi marcada por desafios. Durante a ditadura militar na Argentina, Bergoglio lidou com tensões internas na Igreja e na sociedade, enfrentando dilemas morais e acusações das quais, mais tarde, foi absolvido. E em tempos mais recentes, na pandemia da COVID-19, Francisco ofereceu palavras de consolo ao mundo, rezou sozinho sob a chuva na Praça de São Pedro deserta e recordou a humanidade de todos nós, frágeis e interdependentes.


Agora, com sua partida, os olhares se voltam para o Conclave que escolherá seu sucessor. Será o próximo pontífice um “Francisco II”, alguém que continuará o caminho de diálogo, simplicidade e abertura? Ou a Igreja optará por um perfil mais conservador, buscando um reequilíbrio interno diante das resistências que Francisco enfrentou? As especulações já fervilham, e os cardeais carregarão a responsabilidade de decidir o rumo da Igreja em um mundo tão necessitado de esperança.


Independentemente do que venha, a trajetória de Papa Francisco permanecerá luminosa. Sua despedida, ocorrida após a celebração da Páscoa — símbolo maior da renovação da vida para os cristãos —, parece um sinal providencial. Francisco partiu na plenitude do seu serviço, deixando sementes plantadas em corações de todas as nações.


Ele nos ensinou que a fé não é um fardo, mas um encontro; que a Igreja não é uma fortaleza, mas um hospital de campanha; que a autoridade não se impõe, mas se oferece em serviço. Francisco nos deixa, mas seu legado permanecerá como um farol para os dias escuros e como um sopro de misericórdia para os tempos que virão.


Luz para a alma de Francisco

Pedro Henrique Curvelo

21/04/2025

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

DORMINDO AO LADO DO DIABO - Uma reflexão sobre a Reforma do Papa Francisco


 
 
A luta do Papa Francisco contra a corrupção da Igreja Católica será árdua. Primeiro porque isso é um mal do ser humano, a tendência à corrupção, segundo por causa de uma instituição política com viés religioso, que é o Vaticano. É muito difícil equilibrar um Estado Religioso. De um lado a balança do pragmatismo político, do outro, o discurso do contentamento e amor cristão.

Já havia sinalizado algo semelhante em um texto que escrevi ano passado: http://phcurvelo.blogspot.com.br/2014/12/o-cajado-politico-do-papa-francisco.html

Pelo princípio cristão, Francisco já teria se encontrado com Dalai Lama. No entanto, pelo viés político, não é prudente gerar rachaduras com o governo Chinês.

Agora é a vez dos mafiosos religiosos de batina.
Onde está a raiz da corrupção? A ganância pelo dinheiro e poder. O Papa contesta a gestão financeira do Vaticano, mas, manter um banco ligado a uma religião é dormir ao lado do diabo.

A atuação do Papa é louvável e honrada. O que esperamos do seu cargo. O risco é que mexer em um buraco que só tem cobras, criadas durante séculos, é muito difícil não se ferir.

Pedro Curvelo

Novembro de 2015