sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O ESTUPRO DA VIDA PRIVADA



O Brasil nunca conseguiu separar a vida privada da social. E olha que nunca fomos um país comunista. Mas, calma! Isso não é de agora. Temos essa defraudação nas nossas raízes históricas. O grande historiador, Gilberto Freyre, em seu livro "Casa Grande e Senzala" vai abordar justamente isso. A prisão da vida privada.

Quando nossa nação era colônia e depois império, a vida particular era controlada pelo Estado. Por Estado, entenda a fusão entre política e religião católica. O que você come, quanto você gasta, com quem você transa e para quem você está rezando, tudo era monitorado, pelo Estado ou pelos vizinhos. Na parte da religião, os judeus e os protestantes tiveram dificuldade de viver sua fé no âmbito privado.

A mesma situação se aplica hoje. Eu observo as eleições atuais, as propostas e me assusto. A vida privada é colocada mais em pauta do que questões do comum, do todo, da sociedade. Exemplo: como enfrentaremos a recessão? Como lidaremos com a alta carga tributária? E assim por diante.

No entanto, o que se vê é: o candidato A é a favor do casamento gay? O candidato B é evangélico? O candidato C gosta de prostitutas? No emaranhado de interrogações coloco mais uma: o que a vida privada com isso?

Os políticos replicam o que é prática da sociedade. Nossa individualidade é invadida a todo instante.

Se você se relaciona com uma pessoa do mesmo sexo, por exemplo, isso é colocado em um tribunal social e você é exposto. Se você sai de uma "casa de massagem", o relaxamento que você conseguido, rapidamente vai embora porque os “sentinelas do puritanismo” irão questionar.

No aspecto religioso é a mesma coisa. A fé habita no ambiente particular. No entanto, se você sai de uma instituição religiosa, é visto de forma depreciativa, qualificado como "desviado" ou condenado com a frase "vai para o inferno". Infelizmente, temos facilidade em sacrificar o ser humano por causa das nossas crenças.


Precisamos passar por um processo de mudança de consciência. Entender que o privado só pode ser invadido quando prejudica a sociedade. Do contrário, voltamos a Idade Média, onde quem praticava na vida privada a bruxaria era queimado. Quem não era, mas fosse acusado, também iria para a fogueira. Não estamos longe disso. Somos um povo que não sabemos digerir, colocamos na boca e vomitamos. Vejam o caso daquela mulher de Guarujá que foi linchada na rua acusada de bruxaria e sacrifício de crianças. Tudo por causa de uma fofoca do Facebook.

A menina que chamou o goleiro do Santos de "macaco", teve a casa atacada.

São diversos incidentes que se eu escrever irão virar uma enciclopédia.

A discrição e a preservação da nossa vida privada é essencial para a nossa saúde social.


Pense nisso!

Pedro Henrique Curvelo
Outubro de 2014

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

ELA FOI UMA ROSA BRANCA


Ela voltou do ontem
Olhamos para o mar
Ele serve como encantamento para a projeção de uma fantasia

Seu olhar me levou para outra dimensão
Há uma casa que guarda um segredo
Há uma música que guarda um clímax
Há uma dança da noite em um castelo onde ansiamos pelo passado, nos esquecemos do futuro e fechamos os olhos para a realidade do presente

Dimensões do encantamento de uma paixão
Por um nevoeiro formos arrebatados pelo ápice do gozo
Um gozo que nos embriaga
Liga a memória do primeiro encontro com a dor da despedida


Tentei segurar a ampulheta para que suas areias parassem de correr
Foi em vão!
Ela se quebrou 
O vento desfez o tempo
O silêncio de mim se apoderou
A sensatez me levou para a realidade
Um novo caminho passei então a seguir
A Rosa branca desfez suas pétalas
Espalhadas foram no mar
Onde tudo começou 

Pedro Curvelo
Setembro 2014

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O AMANHÃ COMO SALVAÇÃO



Amanhã começo a dieta
Amanhã paro de fumar
Amanhã não vou deixar de ir na academia
Amanhã trato essa demanda do trabalho
Amanhã volto minha consciência para o meu lado espiritual
Amanhã ligo para ela e peço perdão

Amanhã vou propagar o outro amanhã
Assim, serei sempre levado cativo a ilusão do amanhã
Viver o hoje envolve energia
No amanhã tenho a esperança de uma carga extra
O tempo não nos salva
O despertar da consciência, sim

O "cair em si" se envolve no agora. Mesmo que este represente apenas um segundo. A confissão traz a salvação no hoje.

Esperar pelo amanhã, gera o risco de termos nossas sementes roubadas pela madrugada. Enquanto nos entregamos ao sono que, aparentemente, abre o portal do amanhã.
Enquanto houver o hoje, a vigilância e trabalho serão necessários.
Ainda não é noite, mas nos comportamos como se fosse. Dessa forma, abortamos o dia e a vida que nele existe.
Há um "pão nosso" atrelado a cada dia. Você já se alimentou dele hoje?

Pedro Curvelo
Setembro 2014

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

MESSIANISMO POLÍTICO



A relação entre política e religião é literalmente a figura do lobo se vestindo de ovelha. A peculiaridade nesse caso é a indefinição de quem é lobo e quem é ovelha. É um estado de metamorfose, pois, em algum momento histórico a política pode usar a religião, outro esta a aquela e, até mesmo, um defraudar o outro.

É um processo totalmente incoerente. Onde se é capaz de se sujar com água e se lavar com sangue. Nesse antagonismo poucos enxergam.

Política e religião sempre viveram juntas, no Antigo Egito eram fundidas onde o líder político (Faraó) era também a encarnação do divino. Os hebreus se constituíram como nação escolhida por uma ordem divina. Na Europa Absolutista os reis tinham o selo da eleição divina. E a Igreja Católica construiu o seu próprio Estado: O Vaticano.

Nessas eleições é possível ver o messianismo político. Alguns encaram a Marina como a escolhida de Deus, apesar dela ser totalmente discreta com a sua fé. Dilma sobe no altar do Manuel Ferreira e diz que "feliz é a nação cujo Deus é o Senhor". O PSC lança um candidato que é pastor.

Os religiosos querem garantias contra o "kit gay", obrigação da inclusão da bíblia em bibliotecas, mas, não protestam contra a corrupção. São capazes de se calar diante, por exemplo, dos escândalos de corrupção do PT para garantir favores políticos, como concessões na televisão e rádio. Conseguem fazer uma oração abençoando Arruda em pleno ato de corrupção. Se vendem por pouco. De fato, conseguem "engolir um camelo e se engasgarem com uma mosca".

Existem momentos onde essa relação é quebrada. Como na época de Jesus, onde alguns esperavam que ele reivindicasse o poder político e religioso. No entanto, não o fez. Deixou "César" de um lado e o "templo" do outro lado. Seguiu apenas o seu caminho.


Nossas estruturas sociais não separam o político da religião. Mas, nas nossas consciências poderemos fazer esse divisor. Preservando a nossa relação com o Sagrado e encarando as questões políticas na ótica do racionalíssimo político. Assim, nossa fé será verdadeira em nós e nosso lado político amadurecido em conhecimento e atitude.

Pense nisso!

Pedro Curvelo
Agosto de 2014

sábado, 23 de agosto de 2014

UMA VIDA SEM GARANTIAS



Eu escrevo esse texto
Mas, amanhã não sei se terei visão para ler, força nas mãos para escrever e nem saúde mental para refletir.

Tenho um carro na garagem
Mas, não sei se amanhã ele voltará. Pode ser roubado ou posso bater

Tenho um emprego estável
Mas, o mercado é dinâmico
A empresa pode acabar ou o meu setor ter redução de gastos

Tenho uma companheira
Mas, amanhã a chama desse relacionamento pode acabar
Um de nós dois morrer ou simplesmente terminarmos

Assim eu vivo
Igual a você que faz essa leitura
Sem garantia de nada

Podemos mitigar os riscos, mantendo uma alimentação saudável, por exemplo, embora tal prática não elimine a probabilidade de uma doença ocorrer

Tudo pode acontecer
Seja algo bom ou ruim
O que fazer?
Se a qualquer momento podem pedir a nossa alma

A única garantia que temos é o Agora. O Agora é um ramo da videira chamado Hoje

Sem apoios, nosso eu interior balança até encontrar um ponto de equilíbrio. Não rígido, mas flexível frente aos acontecimentos inesperados desse mistério chamado vida.

Essa consciência nos separa do medo do amanhã. Alimenta a paz no hoje e a força para vivermos em plenitude.

Pedro Henrique Curvelo
Agosto de 2014