quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A TRÍADE DO CAMINHO: UMA PUTA, UMA RELIGIOSA E SANDRA, SIMPLESMENTE



Ela faz isso desde os 14 anos. O que ela faz? Ir para a cama e viver a ciranda da putaria. Toques, cheiros, penetrações e vários nomes.

Ela sabia que a cada transa seu ser era enterrado vivo. Ela nunca quis trabalhar na sua cidade natal. O motivo? Seus pais poderiam descobrir. Dessa forma, dizia que trabalhava em uma outra cidade como executiva. Esta, até aparece em algumas fantasias, mas nem sempre. Nessas transformações, a cada ejaculação que tinha que engolir (ou fingir), sentia dor na alma. Ela não era uma puta de verdade. Estava ali para juntar um dinheiro e se mandar para a Europa. Mas, qual o valor estipulado? Ela nunca definiu. Enquanto isso, várias mãos/pintos já passaram pelo seu corpo. Imaginar que na infância ela queria ser médica.

Ela, a outra, sabia que em cada culto, rito religioso, amordaçava o seu verdadeiro eu. Entrava em um molde e sustentava com “a paz do Senhor”, “amém irmão”, “tá amarrado”, “recebo”, “em nome de Jesus”, “essa benção é minha”, “o diabo tá furioso”, “o Senhor me revelou” e por aí vai. Falaram para ela sobre o caminho do autoconhecimento, do “trancar o quarto” e sobre o silêncio. Mas, ao aquietar a alma, foi transportada para um espelho. Se assustou! Gritou! Era um fantasma? Não. Era ela mesma. Preferiu sair correndo, entrar para uma corrente qualquer, continuar com o check list do moralismo religioso e olhar para o pedaço de madeira que está no olho do próximo. É mais fácil e todo mundo faz isso. Agora, mais do que nunca, postando frases religiosas no Facebook.

Sandra, simplesmente se arrumou. Era o dia da sua formatura. Olhou no espelho e se admirou, mesmo sem maquiagem. Lembrou do primeiro dia de aula, do período em que descobriu sua matéria favorita, a troca de olhares com o João, o bar com as amigas depois da aula de sexta, a morte de um professor querido, o sabor do comungar com diversas pessoas e trocar energias e culturas. De vários universos, ela construiu o seu. Tão místico que o espelho não refletia. Apenas sua consciência, em parte o João e sua mãe e no todo o Eterno. Este, ela reverencia todos os dias no trem, meditava em um livro sagrado e lavava os pés de algumas pessoas em silêncio. Tanta discrição que eu não consegui descobrir os nomes dessas pessoas do Caminho para escrever nesse texto. Era assim, tanto sua vida sexual quanto fé eram tão preciosas que falar demais, seria como espalhar pérolas aos porcos. Mas, no seu caminhar, víamos sua essência, riqueza de humanidade, não havia um lado oculto nela, havia modéstia, o que é bastante diferente. Não havia formas e aparências, havia simplesmente ela: Sandra.


Termino aqui esse texto. Sandra sorri e sai correndo para a sua formatura. Antes fecha os olhos para agradecer alguém que ninguém ver. Por fim, não registrei o nome da puta e nem o da religiosa. O motivo? Ao perguntar, simplesmente não souberam responder.

Pedro Henrique Curvelo
Dezembro de 2014

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